campanhas são o novo grassroots

Abri meu primeiro post dizendo que as ações tradicionais de lobby das empresas e entidades de classe não eram páreo para as campanhas, vídeos e mobilizações da sociedade. Exemplos não faltam. Mesmo assim, volta e meia, me deparo com céticos, que ainda acreditam que o lobby a portas fechadas reina único. Me lembram aqueles que se agarram a uma realidade  que a inovação deixou obsoleta. O que me leva ao embate taxis x transporte via aplicativos de mobilidade e a campanha do Uber, Cabify e 99.

Em setembro de 2017 as três empresas estavam contra a parede. Haviam perdido o primeiro tempo da partida na Câmara, que aprovou o texto dos taxistas, um projeto de lei que efetivamente inviabilizava o transporte individual privado via aplicativos de mobilidade. Ficaram dependendo de um decisão favorável pelo Senado. Ou o Senado mudava radicalmente o texto do PLC 28 ou a Uber, Cabify e 99 teriam que fechar as portas e abandonar um de seus principais mercados.

Sentindo a corda apertar o pescoço, as três empresas se uniram e lançaram a campanha #juntospelamobilidade. A campanha, contra o PLC 28, obteve 815 mil assinaturas que foram entregues no Senado em 25 caixas. O recado estava dado. A sociedade estava com a Uber, Cabify e 99.

imagem_materia assinaturas

(Foto publicada neste artigo)

Por outro lado, não me lembro de uma grande mobilização da sociedade a favor dos taxis. Em dezembro de 2016, houve um protesto em que 70 taxistas estacionaram seus carros na frente do Congresso e outro em outubro de 2017 que contou com 300 carros. Enquanto um lado mobilizou a sociedade, o outro mobilizou a sua base. E esta é uma diferença crítica. Enquanto que no grassroots tradicional uma organização aciona seus membros, as campanhas online chamam à ação todo e qualquer um que tenha interesse na questão. O resultado? 300 x 815,000, um verdadeiro tsunami.  

Não é que o lobby ou grassroots tradicional estejam mortos e enterrados. Reuniões com representantes do Congresso, um entendimento profundo do processo legislativo e a força da base são componentes importantes de qualquer estratégia de lobby. No entanto, aquele que negar este novo lobby mais democrático e participativo — que engaja, mobiliza e leva o cidadão a ação — corre o risco de ficar a ver navios.

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Para quem tiver interesse, abaixo trecho do livro que estou escrevendo com um exemplo de grassroots tradicional bem sucedido.

Em 2011, durante a tramitação do novo Código Florestal no Congresso, a senadora pelo Tocantins Kátia Abreu, que na época era presidente da Confederação Nacional da Agricultura, lançou mão do lobby grassroots para influenciar a votação da proposta. O objetivo era pressionar o governo e o Congresso a acatar as demandas do setor quanto à distância mínima de preservação de matas ciliares nas beiras de rios, à regulamentação das Áreas de Preservação Permanentes (APP) e às Reservas Legais (parcela percentual que deve ser mantida com vegetação nativa em cada propriedade rural). Para isso, a senadora e a CNA conseguiram atrair cerca de 20 mil pequenos e médios produtores rurais para uma manifestação em Brasília (figura abaixo).  
Protesto
Foto publicada neste artigo

Além da presença dos produtores, o movimento também contou com o apoio da bancada ruralista no Congresso e da Frente Parlamentar da Agropecuária, que nesse evento somava 273 congressistas. Mesmo não atendendo à risca as demandas do setor, a pressão conseguiu incluir demandas importantes dos agricultores no novo Código aprovado em dezembro de 2012.

 

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