emoção x razão

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Na Alemanha, 12% da população é doadora de órgãos enquanto que na Áustria são mais de 99%. O que poderia contribuir para uma diferença desta magnitude, já que ambos os países possuem cultura e tradições similares? Um dos fatores é a pergunta que é feita ao potencial doador. Na Alemanha, o cidadão precisa responder afirmativamente a pergunta se quer doar seu órgão (opt in), enquanto que na Áustria ele é automaticamente considerado doador, tendo que indicar que não tem a intenção de doar seus órgãos após a morte (opt out). A simples mudança da opção default, ou da arquitetura de decisão, levou alemães e austríacos a optarem por respostas diferentes.  

Mas isso bate de frente com a percepção de que nosso processo de decisão é racional. Infelizmente, de racional temos pouco. É esta a conclusão a que chega uma disciplina ainda relativamente nova: as ciências comportamentais. Vários estudos indicam que, ao contrário do que gostaríamos de acreditar, a maioria das nossas decisões são baseadas em intuições e reações emocionais. Até a decisão em quem votar ou quando comprar ou vender uma ação não escapam desta realidade. Quem já não ouviu falar do efeito manada quando a bolsa de valores cai? Nós nos convencemos de que a decisão foi pensada e repensada, mas no fundo quem está no controle é o lado emocional do nosso cérebro. Marqueteiros de produtos e políticos sabem disto há algum tempo. Abraçaram as ciências comportamentais.

Um teste: Se eu te oferecesse R$100 hoje ou R$120 daqui a um ano, um investimento com juros de 20% ao ano, o que você preferiria? Se você respondeu R$100 hoje, você faz parte da maioria, pois os R$100 trazem uma satisfação imediata. No entanto, do ponto de vista racional, a melhor decisão teria sido esperar 12 meses para ganhar os R$120. O teste serve como um alerta, pois mostra a dificuldade que temos de agir hoje em prol de um retorno no futuro. Isto é verdade quando pensamos em poupar para a nossa aposentadoria ou investir em ações para mitigar o aquecimento global.

Fazem décadas que cientistas alertam sobre os riscos futuros do aquecimento global. Não faltaram avisos de que daqui a 30-50 anos o nível do mar iria subir, de que haveria mais incêndios florestais e eventos climáticos catastróficos. O problema é que temos dificuldade de imaginar este futuro e entre pagar mais hoje (via impostos ou investimentos no transporte público) para um benefício incerto lá na frente, a maioria das pessoas preferem manter o status quo. Um exemplo atual desta dinâmica são os protestos violentos na França de Macron, que teve que revogar sua decisão de criar um imposto verde sobre combustíveis como parte do compromisso da França de manter o aumento da temperatura global em menos de 2 graus Celsius, em linha com o Tratado de Paris.

Paul Slovic, professor de psicologia na Universidade de Oregon, conduziu um teste em que perguntava aos participantes sobre suas percepções do risco e benefício de algumas tecnologias, tais como automóveis, preservativos para alimentos e plantas químicas. Ele descobriu que pessoas atribuíam maior benefício e menor risco às tecnologias que tinham apreço. Isto é, a avaliação de risco da tecnologia tinha pouco a ver com o risco em si (uma avaliação racional), mas sim com se gostavam ou não da tecnologia (decisão emocional). A implicação aqui é clara. Se a sociedade gosta da tecnologia, tudo bem, mas se não gostar, a percepção de risco irá aumentar. E sabemos o resultado: mais demanda por regulamentação. Basta olhar o inferno astral pelo qual a indústria de tecnologia da informação está passando.

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