o ativismo corporativo veio para ficar

Num dos meus blogs anteriores escrevi sobre como as políticas públicas viraram públicas. Falei sobre a rotulagem de produtos no Chile (em que o vídeo de uma estudante no YouTube teve em torno de 10 vezes o número de visualizações do que o da entidade de classe representando os interesses da indústria) e a neutralidade da rede nos EUA (que virou ação de marketing do Burger King). Ambos os casos demonstram diferentes aspectos da democratização do lobby e do debate de políticas públicas, no entanto, os dois tratam de temas essencialmente econômicos.

Hoje quero trazer dois exemplos em que os temas são sociais, onde não existe uma conexão econômica direta que justificasse o engajamento das empresas. Primeiro, compartilho o caso da Delta Airlines sobre o controle de armas e em seguida, o caso da Salesforce sobre a crise dos sem teto em São Francisco (onde atualmente moro).

Após o massacre de 2017 em que 17 estudantes foram mortos a tiros numa escola da Flórida, várias empresas aderiram a um boicote contra a Associação Nacional de Rifles (NRA). A Delta Airlines, com sede na cidade de Atlanta, Georgia, optou por cancelar um programa de descontos aos membros da NRA. O vice governador da Georgia, um republicano, imediatamente foi a público contra a decisão da empresa, ameaçando eliminar uma proposta de redução de imposto sobre combustível de aviação — da qual a Delta Airlines seria a maior beneficiária — que estava em discussão na Assémbleia Legislativa. Poucas semanas depois, a Assembléia, controlada pelo Partido Republicano, passou a nova lei tributária sem o corte de impostos. A Delta manteve seu posicionamento, mas perdeu US$40 milhões em benefícios fiscais.

Neste caso, além de não haver nenhuma vantagem econômica direta para a Delta, a empresa perdeu US$40 milhões em benefícios fiscais. Mas porque a Delta seguiu este caminho? Pelo mesmo motivo que cada vez mais empresas se engajam em temas sociais: o de construir confiança entre a empresa e a sociedade, e o reconhecimento de que a confiança somente se constroe com ações concretas, em linha com as expectativas da sociedade e/ou comunidade que as cerca.

Foi assim também com a Salesforce. Em novembro de 2017 os eleitores de São Francisco aprovaram uma iniciativa popular (Proposition C) instituindo um novo tributo que incidirá sobre empresas com faturamento acima de USD50 milhões com o objetivo de endereçar um problema crônico da cidade – os sem teto. Até ai nada de muito novo. O que há de novo é que o CEO da Salesforce, Marc Benioff, se jogou de corpo e alma no debate, disponibilizando recursos próprios e da empresa (na ordem de USD7 milhões) para apoiar a causa. Ele acabou se tornando um porta voz informal da iniciativa. Ele apareceu em programas de TV e escreveu um artigo de opinião que foi publicado no New York Times. Ao defender o imposto ele bateu de frente com outros CEOs, como por exemplo Jack Dorsey do Twitter, que se posicionaram de forma contrária a iniciativa. No final, Benioff e sua coalizão obtiveram 60% de votos favoráveis à iniciativa popular.

Os casos da Delta e Saleforce são emblemáticos deste novo ambiente em que empresas estão assumindo um novo papel, usando sua força econômica e política para efetuar mudanças em políticas públicas de cunho social, o que é extremamente positivo. Mas este papel não vem sem riscos. Ao contrário das ações de cidadania corporativa tradicionais e de sustentabilidade, o ativismo corporativo se conecta com a política e o mundo das políticas públicas, criando um novo contexto em que empresas e CEOs terão que navegar.

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