Idéias a venda

Empresas estão cada vez mais cientes da necessidade de levar ao público sua posição sobre um política pública. Seja devido a inevitabilidade de uma nova regulamentação, a necessidade de dar uma resposta a pressão da sociedade ou de seus funcionários ou a uma estratégia de public affairs ou reputação, fato é que empresas estão deixando claro o que esperam do Congresso ou Executivo. É como se o tradicional position paper antes entregue a membros do Congresso ou a um representante do Executivo — detalhando um posicionamento — tivesse sido reformulado para ser compartilhado com todos. É o que fez o Facebook.

Algumas semanas atrás, o Washington Post publicou um artigo de opinião do Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, no qual ele sugere que o Congresso regule sua empresa em quatro áreas: conteúdo nocivo, integridade das eleições, privacidade e portabilidade dos dados. Para cada área, ele estabelece o desafio, o que a empresa tem feito e possíveis soluções, inclusive com recomendações sobre o que o Congresso deveria fazer. Por exemplo, quanto a integridade das eleições, Zuckerberg escreve: “No entanto, decidir se um anúncio é político nem sempre é simples. Nossos sistemas seriam mais eficazes se a regulamentação criasse padrões comuns para a verificação de atores políticos. Acreditamos que a legislação deve ser atualizada para refletir a realidade das ameaças e definir padrões para toda a indústria”.

Não faltam motivos para Zuckerberg pedir publicamente ao Congresso que regule sua empresa. Pode ser uma tentativa de reverter o baixo nível de confiança no Facebook após uma série de escândalos ao longo dos últimos anos em torno da privacidade dos dados (entre eles o caso Cambridge Analytica) e a utilização da plataforma para influenciar as eleições presidenciais de 2016. Pode também ser uma estratégia para reduzir as demandas por uma ação anti truste ou transferir ao Congresso parte da responsabilidade de endereçar os desafios sobre privacidade, eleições e distribuição de conteúdo nocivo. Mas o que merece atenção é a importância que a empresa está dando a comunicação com a sociedade sobre seu posicionamento.

Mas não é somente o Facebook que tem ido a público compartilhar suas idéias. Também no setor de tecnologia, o VP de global public policy e government relations do Google, Karan Bhatia, afirmou publicamente que a empresa gostaria de ver uma maior convergência global em torno da regulamentação da internet. A mesma opinião foi externada pela AT&T. Veja que as empresas não estão se opondo a regulamentação, muito pelo contrário, elas estão abertas a regulação e comunicando sua posição abertamente.

O mesmo vem acontecendo com as empresas de energia em relação ao aquecimento global. Em resposta a forte demanda da sociedade por ações que reduzam o impacto da queima dos combustíveis fósseis no clima, empresas de energia tem estado a frente do lobby a favor de uma política pública que endereça o aquecimento global. Semana passada, por exemplo, a Shell, BP e EDF Renewables alocaram US$2.2 milhões (BP e Shell com US$1 milhão cada e a EDF Renewables com US$200 milhões) à uma iniciativa para aprovar no Congresso um imposto que incida sobre a emissão de CO2. É isso mesmo. As empresas criaram uma coalizão cujo objetivo é criar um imposto sobre seu produto (cujo montante será distribuído à população). Claro que existem benefícios para as empresas. Parte da proposta inclui a eliminação de regulamentação. É que a coalizão argumenta que o imposto será até 3 vezes mais eficiente em reduzir a emissão de CO2 do que as regulamentações impostas ao setor durante o governo Obama.

Para saber como eleitores democratas e republicanos reagiriam a proposta, a coalizão contratou uma pesquisa da Luntz Global. Os resultados mostraram que a proposta tem amplo apelo, tanto por democratas (maior) como por republicanos. Quatro em cada cinco eleitores querem que o Congresso deixe a política de lado e chegue a uma solução bi partidária para o aquecimento global.

Outras empresas criaram uma coalizão multi setorial em parceria com ONGs, a CEO Climate Dialogue, estabelecendo princípios para o desenvolvimento de políticas públicas que enderecem os impactos da mudança climática*. O que fica claro, é que estratégias de public affairs e lobby cada vez mais requerem um profundo conhecimento da sociedade. Dependendo do tema, o cidadão deve ser tratado como mais um stakeholder. Neste contexto, entender o que ele pensa e sente, além de seus anseios e medos será cada vez mais importante. Conheça seu cliente antes de vender a sua idéia.

 

* Para uma leitura completa sobre as diversas iniciativas de empresas em relação ao aquecimento global sugiro o seguinte artigo https://www.axios.com/the-big-corporate-shift-on-climate-change-1edea61e-ca43-4df9-a293-d42e00f08caa.html?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=newsletter_axiosam&stream=top

Companies are increasingly aware of the need to make their public policy positions public. Whether it’s due to the inevitability of new regulation, the need to respond to pressure from society and its employees, or a public affairs or reputation strategy, companies are openly sharing what they expect from Congress and the Executive. It is as if the traditional position paper previously handed to Members of Congress or a senior government official – detailing a position – has been reimagined to be shared with everybody. That’s what Facebook did.

A few weeks ago, the Washington Post published an opinion piece by Mark Zuckerberg, CEO of Facebook, in which he suggests that Congress regulate his business in four areas: harmful content, election integrity, privacy, and data portability. For each area, the opinion piece sets the challenge, what the company has done, and possible solutions, including recommendations on what Congress should do. For example, regarding the integrity of elections, Zuckerberg wrote: “However, deciding whether an ad is political isn’t always straightforward. Our systems would be more effective if regulation created common standards for verifying political actors. We believe legislation should be updated to reflect the reality of the threats and set standards for the whole industry.

There are plenty of good reasons for Zuckerberg to publicly ask Congress to regulate his company. It may be an attempt to reverse the low level of trust in Facebook after a series of data privacy breaches over the last few years (including the Cambridge Analytica case) or the use of the platform to influence the 2016 presidential elections. It may also be a strategy to reduce demands for an anti-trust action or to transfer to Congress some of the responsibility of addressing privacy, election integrity, and harmful content distribution. But what deserves special attention, is the importance the company has placed on communicating its policy position to society at large.

But it’s not only Facebook that has gone public to share its ideas. Also in the technology sector, Google’s VP of global public policy and government relations, Karan Bhatia, publicly stated that the company would like to see global convergence around Internet regulation. The same opinion was voiced by AT&T. Note that companies are not opposing regulation, quite to the contrary, they are embracing it and openly communicating their position.

The same holds true for energy companies. In response to strong societal demand for actions to reduce the impact of fossil fuels on climate, energy companies have been spearheading lobbying efforts in favor of public policies that address global warming. Last week, for example, Shell, BP and EDF Renewables allocated US $ 2.2 million (BP and Shell with US $ 1 million each and EDF Renewables US $ 200 million) to an initiative to approve in Congress a tax on CO2 emissions. That’s right. The companies have created a coalition to create a tax on their product (proceeds will be distributed to the population at large). Of course, there are benefits for the companies. Part of the proposal includes the elimination of regulation. The coalition argues that the tax will be up to 3 times more efficient in reducing CO2 emissions than the regulations imposed to the sector during the Obama Administration.

To find out how Democratic and Republican voters would react to the proposal, the coalition commissioned a survey by Luntz Global. The results showed that the proposal had wide appeal, both by Democrats (larger) and Republicans. Four out of five voters want Congress to leave politics aside and arrive at a bi-partisan solution to global warming.

Other companies created a multi-sectoral coalition in partnership with NGOs, the CEO Climate Dialogue, establishing principles for the development of public policies that address the impacts of climate change.* What is becoming clearer, is that public affairs and lobbying strategies increasingly require a deep understanding of society. Depending on the issue, citizens need be treated as stakeholders. Therefore, understanding what citizens believe and feel, as well as what their aspirations and fears are, will become increasingly important. Know your customer before selling them an idea.  

* For a in-depth review about the various corporate initiatives on global warming I suggest the following article:

https://www.axios.com/the-big-corporate-shift-on-climate-change-1edea61e-ca43-4df9-a293-d42e00f08caa.html?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=newsletter_axiosam&stream=top

 

 

 

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