Experts na mira

A pandemia lançou uma sombra sobre o papel dos experts no debate de políticas públicas, reforçando entre alguns setores da sociedade a ideia de que eles são parciais e  trazem viés político. O mesmo transpareceu após o referendo sobre a permanência da Inglaterra na União Européia (UE), ou Brexit, quando o voto a favor da saída do Bloco foi uma surpresa generalizada. Experts haviam previsto que a saída seria um desastre econômico para o país, o que acabou sinalizando uma desconexão entre a visão de mundo dos experts (elitista) e de uma maioria que não se beneficiou do acordo com a UE.

A questão sobre o papel dos experts não é nova. Em seu livro publicado em 2017 “A Morte do Conhecimento”, Tom Nichols, professor de Assuntos de Segurança Nacional no U.S. Naval War College, fala de três tendências que ajudam a explicar a desconfiança do cidadão em relação aos especialistas: o cidadão passou a associar experts com a elite; acreditar que formular política pública e governar são tarefas fáceis ao alcance de todos e ter a ilusão de conhecimento. 

Perigo maior, no entanto, é quando governantes enveredam pelo mesmo caminho, refletindo o sentimento de suas bases. Enquanto que em alguns países especialistas tiveram papel de destaque no enfrentamento inicial da atual pandemia — em que médicos e epidemiologistas deram o norte da estratégia de prevenção e contenção — em outros, o papel dos especialistas foi amplamente criticado. 

Brasil e EUA estão entre os países nos quais seus presidentes tentaram minimizar o perigo da pandemia logo no seu início, contrário a recomendação dos especialistas. Talvez o comentário que melhor exemplifique esta ambivalência em relação aos experts foi aquele feito pelo Presidente Trump durante uma coletiva de imprensa quando parece ter sugerido que deveria-se avaliar a ingestão ou injeção de desinfetante para tratar o Covid-19. No Brasil, o Presidente Bolsonaro continuamente bateu de frente com seu primeiro Ministro da Saúde, até demití-lo. 

Qualquer que seja a política pública – desde como melhor endereçar uma pandemia e os enormes custos econômicos a ela associados, enfrentar o aquecimento global até decidir sobre a neutralidade da rede – o papel dos experts é fundamental na hora de determinar os potenciais impactos de uma política pública nos diversos segmentos da sociedade, regiões ou setores econômicos e avaliar seu custeio no curto e longo prazos. 

No entanto, quando o debate de políticas públicas vai à público, a lógica do debate é outra. Ela pede uma conversa mais simples e emocional em que o jargão e o conhecimento técnico podem ser percebidos de forma negativa. O grande desafio é trazer conhecimento ao debate público de uma forma que seja relevante ao cidadão — criando uma conexão com sua realidade — e não menosprezar seu papel.  

ENGLISH TRANSLATION —— ENGLISH TRANSLATION —– ENGLISH TRANSLATION

Focus on Experts

The pandemic has cast a shadow on the role of experts in the policy debate, reinforcing the views espoused by many that experts are partial and hold political bias. The same ensued after the British referendum on whether to remain or not in the European Union (EU), or Brexit, when the vote in favor of leaving the Bloc turned out to be a huge surprise. Experts had predicted the exit would be an economic disaster for the country, signaling a disconnect between the world views of experts (elites) and a majority that didn’t benefit from the agreement with the EU.

The issue surrounding the role of experts is not a new one. In his 2017 book “The Death of Expertise”, Tom Nichols, professor of National Security Affairs at the US Naval War College, speaks of three trends that help explain citizen’s distrust in experts: the  association of experts with the elite; the believe that crafting policies and governing are easy tasks that anyone can do, and the illusion of knowledge.

The greatest danger, however, is when elected officials take the same path, reflecting the views of their base. While in some countries experts played a prominent role in the initial stages of the current pandemic – in which doctors and epidemiologists helped direct prevention and containment strategies – in others, the role of experts was criticized. 

Brazil and the US were among the countries in which their presidents tried to minimize the dangers of the pandemic in its early stages, against the recommendation of experts. Perhaps the comment that best exemplifies this distrust in experts was made by President Trump during a press conference when he seems to suggest that the intake or injection of desinfectant should be evaluated as a treatment option. In Brazil, President Bolsonaro repeatedly clashed with his Health Minister, until firing him.

Whatever the public policy – from how to best address the pandemic and the huge economic costs associated with it, deal with global warming or decide on net neutrality – experts have a key role in determining the potential impact of a given policy on society, regions, and economic sectors, as well as evaluate their cost in the short and long terms.

However, the public debate of policies follows a different logic. It calls for a more simple and emotional conversation in which technical jargon and knowledge may be detrimental. The challenge moving forward is to bring technical knowledge to the public debate in a way that is meaningful to and effectively connects with the citizen, and not to belittle its role. 

 

Um comentário em “Experts na mira

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s