A globalização do lobby

O que o Felipe Neto e 400.000 alemães têm em comum? Se você achou que poderia ser uma certa antipatia pelo Presidente Bolsonaro, você acertou, mas este não é exatamente o tema deste post. O que eles também têm em comum é o fato de estarem tentando influenciar questões em países que não os seus.    

Em maio deste ano estava vencendo o prazo de 90 dias para a votação da MP da Grilagem (MP 910), de autoria do governo. Caso não fosse votada, a MP perderia sua validade. A pressão da sociedade contra a MP foi tanta que o Presidente da Câmara, Rodrigo Maia, se viu forçado a deixar a medida provisória caducar. Caso ela tivesse sido votada e aprovada, a medida teria permitido que terras públicas ocupadas e desmatadas ilegalmente até 2018, principalmente aquelas na Amazônia, fossem regularizadas tornando-se passíveis de venda. 

A campanha para tirar a MP da pauta do Congresso contou com celebridades, como a modelo Gisele Bundchen, o cantor e compositor Caetano Veloso e a Chef Bela Gil (veja abaixo). Contou também com o apoio de várias ONGs nacionais e internacionais, entre elas o Observatório do Clima, Instituto Socioambiental, o Conselho Empresarial Brasileiro pelo Desenvolvimento Sustentável, além do Climate Policy Initiative, Greenpeace e WWF. Além do mais, oito ex ministros do meio ambiente assinaram carta aberta em que afirmam que a MP 910 beneficiaria somente aqueles que ilegalmente tomaram posse de terras públicas, causando prejuízo econômico e prejudicando o controle do desmatamento.

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Até o setor privado brasileiro, mais reticente em se posicionar publicamente sobre políticas públicas, sentiu-se compelido a tomar uma posição pró meio ambiente. No início de julho várias empresas subscreveram carta ao vice presidente Mourão em que os signatários pedem “rigorosa fiscalização de irregularidades e crimes ambientais” (veja carta). A carta é assinada pela Ambev, Bradesco, Itaú, Klabin, Natura e Suzano, além de várias multinacionais. Fundos de pensão internacionais também vêm pressionando o governo brasileiro a reduzir o desmatamento na Amazônia e implementar políticas públicas verdes.

Mas o que merece maior atenção ainda é o ocorrido na Inglaterra e na Alemanha, longe do debate no Brasil. Na Inglaterra, algumas das maiores redes de supermercado (Tesco, Sainsbury’s, Morrisons e Marks & Spencer), além da rede Burger King e outros signatários ameaçaram boicotar produtos brasileiros caso a MP fosse aprovada. Na Alemanha, a Campact, ONG sediada em Berlin, criou uma campanha online (foto abaixo) para pressionar três das cinco principais redes de supermercado do país (Aldi Nord, Edeka e Lidl) a seguirem na mesma linha dos supermercados britânicos: boicotar produtos brasileiros (Aldi Sud e Rewe se comprometeram com o boicote). A petição já foi assinada por quase 400.000 pessoas.

Isto é, diferente da pressão institucional nacional ou estrangeira no Brasil, do próprio cidadão brasileiro ou de celebridades nacionais que abraçam uma causa, o que vemos aqui é a pressão do cidadão de um país sobre tema sendo discutido em outro via uma ação local no seu país.

Screen Shot CAMpact2020-07-17 at 3.03.23 PM

Exemplo similar vem da Suécia. Lá, Johannes Cullberg, fundador e CEO da rede de supermercados de produtos naturais Paradiset, anunciou em meados no ano passado um boicote aos produtos agrícolas brasileiros. O boicote foi uma reação a outra medida do Congresso brasileiro, neste caso a aprovação de uma regulamentação menos rígida para a aprovação de defensivos agrícolas.   

Além da globalização do cidadão stakeholder e do debate de políticas públicas, temos também a globalização das celebridades. Não em suas áreas de atuação, mas a de suas opiniões políticas. Caso recente é do Felipe Neto, influenciador com quase 39 milhões de seguidores no seu canal no YouTube. Semana passada, o New York Times publicou um video de opinião do Felipe Neto em que ele leva ao público americano sua opinião – a de que o presidente brasileiro é pior do que o americano no quesito como lidar com a pandemia do coronavírus. Ele fecha o vídeo com um chamado a ação: pelo Brasil, por favor não reelegem Trump. 

O cidadão stakeholder alemão e o Felipe Neto são faces da mesma moeda: ambos se inseriram em conversas que antes eram delimitadas pelas fronteiras de um país, onde não havia espaço para opiniões individuais vindo de “fora”. Goste ou não goste, será cada vez mais difícil manter questões nacionais – da política a política pública – circunscritas as quatro paredes de um país.

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The globalization of lobbying

What do Felipe Neto (a famous Brazilian YouTuber) and 400,000 Germans have in common? If you guessed it’s a certain distaste for President Bolsonaro, you got it right, but this is not quite the topic of this post. What they also have in common is their effort to try to influence issues in countries other than their own.

In May of this year, the 90-day deadline for voting on the “land grabbing” provisional measure (MP 910), issued by the government, was set to expire. If not voted on, it would lose its validity. Societal pressure against the MP was so strong that the President of the Lower Chamber, Rodrigo Maia, was forced to let the provisional measure expire. If it had been voted on and approved, the measure would have allowed those who illegally occupied and deforested public lands before 2018, mainly areas in the Amazon, to legalize the plots and sell them.

The campaign to remove the MP from Congress’ agenda featured celebrities, such as model Gisele Bundchen, singer and composer Caetano Veloso and Chef Bela Gil (see below). It also had the support of several national and international NGOs, including the Observatório do Clima, Instituto Socioambiental, the Brazilian Business Council for Sustainable Development, in addition to the Climate Policy Initiative, Greenpeace and WWF. In addition, eight former environmental ministers signed an open letter stating that MP 910 would benefit only those who illegally took possession of public land, causing economic damage and hampering deforestation control.

Screen Shot bela gil 2020-07-16 at 3.18.55 PM

Even the Brazilian private sector, more reluctant to take a public position on public policies, found itself compelled to take a pro-environment stance. In early July, they sent a letter to Vice President Mourão in which the signatories asked for “strict inspection of environmental irregularities and crimes” (see letter). The letter is signed by Ambev, Bradesco, Itaú, Klabin, Natura and Suzano, in addition to several multinationals. International pension funds are also putting pressure on the Brazilian government to reduce deforestation in the Amazon and implement green public policies.

But what deserves even greater attention is what happened in England and Germany, far from the debate in Brazil. In England, some of the largest supermarket chains (Tesco, Sainsbury’s, Morrisons and Marks & Spencer), in addition to Burger King and other signatories, threatened to boycott Brazilian products if the MP was approved. In Germany, Campact, an NGO based in Berlin, created an online campaign (photo below) to pressure three of the country’s top five supermarket chains (Aldi Nord, Edeka and Lidl) to follow in the steps of the British supermarkets: boycott Brazilian products (Aldi Sud and Rewe pledged to adhere to the boycott). The petition has been signed by almost 400,000 people.

Different from the national or foreign institutional pressure in Brazil, pressure by the Brazilian citizen, or by home-grown celebrities, what we see in this example is pressure from one country’s citizen — via a local action — on an issue being discussed in another country.

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A similar example comes from Sweden. There, Johannes Cullberg, founder and CEO of the supermarket chain of natural products Paradiset, announced in the middle of last year a boycott of Brazilian agricultural products. The boycott was a reaction to another measure by the Brazilian Congress, the approval of a less stringent regulation for the approval of pesticides.

In addition to the globalization of the citizen stakeholder, as well as of the public policy debate, celebrities are going global too. Not in their line of business, but with their political opinions. A recent case is Felipe Neto, an influencer with almost 39 million subscribers on his YouTube channel. The New York Times published an op-ed video by Felipe Neto in which he takes his opinion to the American public – that when it comes to dealing with the coronavirus pandemic, the Brazilian President Bolsonaro is even worse than Trump. He closes the video with a call to action for the American viewer: for Brazil’s sake, please don’t re-elect Trump.

The German stakeholder citizen and Felipe Neto are different sides of the same coin: both were involved in conversations that were previously limited to the country itself, where there was no room for individual “outside” opinions. Like it or not, it will be increasingly difficult to keep national issues – from politics to public policy – limited to the four walls of a country.

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