Na Contramão

Em nome da liberdade de expressão, o Facebook tem seguido na contramão de outras empresas, resistindo adotar medidas mais restritivas (como o fizeram o Google e o Twitter) para conter a propagação de propaganda política enganosa (discutido no meu post sobre fake propaganda política) e mais recentemente a propagação de mensagens que incitam a violência e o ódio (hate speech). Isto, depois de ter passado por uma série de percalços, incluindo o caso Cambridge Analytica (privacidade de dados) e a influência Russa nas eleições presidenciais de 2016. Premeditado ou desconexão da liderança com o mundo que os cerca?

Zuckerberg, CEO do Facebook, sempre foi rápido no gatilho e certeiro nos tiros. Em 2012 ele comprou o Instagram por US$1 bilhão (a empresa é hoje avaliada em mais de US$100 bilhões) numa negociação que demorou somente um fim de semana. Dois anos depois fechou a compra do WhatsApp por US$19 bilhões. E em meio a pandemia os resultados quadrimestrais da empresa foram acima do esperado. Nada mau. No entanto, a reputação da empresa … De acordo com pesquisa da Axios Harris Poll publicada esta semana, o Facebook está em 97 lugar, junto com Wells Fargo (96), Monsanto (98), Organizações Trump (99) e Juul Labs (100). A Amazon está em terceiro lugar, o Google em 24 e a Apple em 27. Mas será que Zuckerberg está preocupado? Parece que não.

Algumas semanas atrás estourou mais uma crise. Desta vez o estopim foi um tweet do Presidente Trump logo após o assassinato de George Floyd, homem negro sufocado por um policial branco numa rua de Minneapolis. No seu tweet o presidente diz: “..when the looting starts, the shooting starts” (quando os saques começam, os tiros começam). A frase tem passado racista. Ela foi utilizada pelo chefe da polícia de Miami, Walter Headley, em 1967, numa audiência pública para tratar da ameaça de jovens negros nas marchas por direitos civis. Segundo matéria do New York Times de 1970, Headley disse: “Existe apenas uma maneira de lidar com saqueadores e incendiários durante uma rebelião, e é matá-los à primeira vista. Eu deixei a palavra filtrar (pela organização): quando os saques começam, os tiros começam”. No ano seguinte, o candidato segregacionista a presidência dos EUA, George Wallace, também usou a frase.

O Twitter (cuja reputação — dois pontos a frente do Facebook — também deixa a desejar) agiu rapidamente. Baseado na sua regra de que o tweet “glorificava a violência”, a empresa manteve o tweet do Presidente, mas dificultou o acesso ao tweet e não permitiu que fosse compartilhado nem que pessoas pudessem dar um like (veja abaixo). Facebook, no entanto, seguiu na sua linha tradicional e não interferiu. Para Zuckerberg o tweet do Presidente não feria as políticas internas da empresa, mesmo que discordasse da abordagem do Presidente. Na sua página do Facebook ele escreveu: “Eu discordo totalmente de como o presidente falou sobre isso, mas acredito que as pessoas devem ser capazes de ver isso por si mesmas, porque, em última análise, só será possível responsabilizar aqueles em posições de poder quando seu discurso é examinado minuciosamente para todo mundo ver”. Vários funcionários ficaram indignados com a posição de Zuckerberg. Uns fizeram uma mini greve virtual (única alternativa possível durante uma pandemia), outros se demitiram, mas nada mudou.

 

Screen Shot tweet DT 2020-08-06 at 10.36.03 AM

A sociedade civil organizada, como a Color of Change, Anti Defamation League e Sleeping Giants decidiu ir além das conversas regulares que mantinham com o Facebook para organizar um boicote (#stophateforprofit) em que pediam para que empresas parassem de anunciar na plataforma durante o mês de julho. Mais de 1000 empresas aderiram ao boicote, entre elas a Patagonia, Ben & Jerry, Unilever e Levi’s. O impacto financeiro do boicote foi limitado, mas parece que Zuckerberg entendeu o recado. Quando o Presidente Trump subiu um video em que alegava que crianças eram praticamente imunes ao vírus Covid-19, a empresa bloqueou o video argumentando que se tratava de desinformação, em desacordo com sua política.

Com mais de 3 bilhões de usuários globalmente, a opinião de uns ou outros sobre como a plataforma se posiciona frente a temas como a privacidade dos dados e mensagens que disseminam o ódio e a violência parece não ser prioridade para Zuckerberg. Mas outras empresas não se podem dar a este luxo e estão mais abertas a um novo mundo em que a opinião do cidadão conta. Para Zuckerberg será mais difícil ignorar o peso econômico destas empresas. 

Minha resposta à pergunta no final do primeiro parágrafo: premeditado. Qual a sua?

XXXXXXXXXXXXXXXXX INFORMAL ENGLISH TRANSLATION XXXXXXXXXXXXXXXXXXX

In the name of freedom of speech, Facebook has taken the opposite approach from many companies, and has resisted the adoption of restrictive measures (as Google and Twitter did) to contain the spread of misleading political advertising (discussed in my post on fake political advertising) and more recently the spread of messages that incite violence and hatred (hate speech). This, after having gone through a series of mishaps, including the Cambridge Analytica debacle (data privacy) and the Russian influence scandal in the 2016 presidential elections. Premeditated or a disconnected leadership?

Zuckerberg, Facebook’s CEO, has always been quick on the draw and accurate on the shots. In 2012 he bought Instagram for $1 billion (the company is now valued at more than $100 billion) in a deal that took only a weekend to negotiate. Two years later he closed the purchase of WhatsApp for $19 billion. And in the midst of a pandemic, the company’s quarterly results were above expectations. Not bad. However, the company’s reputation … According to an Axios Harris Poll survey published this week, Facebook ranks 97, along with Wells Fargo (96), Monsanto (98), Trump Organizations (99) and Juul Labs (100). Amazon is in third place, Google in 24 and Apple in 27. But is Zuckerberg worried? It seems not.

A few weeks ago another crisis broke out. This time the trigger was a tweet from President Trump shortly after the assassination of George Floyd, a black man choked by a white policeman on a Minneapolis street. In his tweet the president says: “..when the looting starts, the shooting starts”. The phrase has a racist past. It was used by Miami police chief Walter Headley in 1967 in a public hearing to address the threat of black youth in civil rights marches. According to a New York Times report from 1970, Headley said: “There is only one way to handle looters and arsonists during a riot and that is to shoot them on sight. I’ve let the word filter down: When the looting starts the shooting starts.” The following year, the segregationist candidate for the presidency of the USA, George Wallace, also used the phrase.

Twitter (with a reputation score of 95, only two points ahead of Facebook) acted quickly. Based on its rule that the tweet “glorified violence”, the company added a warning to it, made it difficult to access the tweet, and did not allow it to be either shared or liked (see below). Facebook, however, followed in its traditional path and did not interfere. For Zuckerberg, the President’s tweet did not breach the company’s internal policies, even if he disagreed with the President’s approach. On his Facebook page he wrote: “ I disagree strongly with how the President spoke about this, but I believe people should be able to see this for themselves, because ultimately accountability for those in positions of power can only happen when their speech is scrutinized out in the open.”

Screen Shot tweet DT 2020-08-06 at 10.36.03 AM

Several employees were outraged by Zuckerberg’s position. Some had a virtual strike (the only possible alternative during a pandemic), others resigned, but nothing has changed.

Organized civil society, such as the Color of Change, Anti Defamation League and Sleeping Giants decided to go beyond the regular conversations they had with Facebook to organize a boycott (#stophateforprofit) in which they asked companies to stop advertising on the platform during the month of July. More than 1,000 companies joined the boycott, including Patagonia, Ben & Jerry, Unilever and Levi’s. The financial impact of the boycott was limited, but it appears that Zuckerberg got the message. When President Trump uploaded a video in which he claimed that children were practically immune to the Covid-19 virus, the company blocked the video on the grounds that it was disinformation, at odds with its policy.

With more than 3 billion users globally, one’s opinion about how the platform positions itself on issues such as data privacy and messages that spread hate and violence does not seem to be a priority for Zuckerberg. But other companies cannot afford this luxury and are more open to a new world in which people’s opinions count. Zuckerberg will find it harder to ignore the economic weight of these companies.

My answer to the question at the end of the first paragraph: premeditated. What’s yours?

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