A nova fronteira do lobby

Empresas que não investirem seu capital econômico numa causa submetem-se ao risco de críticas de PR activism 

“Seja literal. Faça exatamente o que você diz que fará”. Foi assim que Anthony Herron, um rapper de Queens em Nova York, reagiu ao hashtag #standforjeniffer, ou #apoiejeniffer. 

Jeniffer, negra e mãe solteira de uma menina de 2 anos estava sendo assediada e ameaçada por um vizinho há 3 anos. A polícia dizia que nada podia fazer caso não houvesse agressão física. Com medo e sem alternativas escreveu uma nota gigante falando de sua situação e a fixou do lado de fora de sua casa. Alguém viu a nota, tirou uma foto e a postou na web. Foi o ponta pé inicial da campanha #standforjennifer.

Quando viu a campanha, Anthony decidiu ir além de simbolicamente deixar seu apoio  numa plataforma digital. Optou por um ato concreto: uma vigília noturna na frente da casa de Jennifer. Queria protegê-la. Com a campanha, qualquer um poderia descobrir o endereço de Jennifer, e ele não podia descartar a possibilidade de algum ato mais violento. Iria esperar até que o caso da Jennifer fosse ouvido pela corte. A vigília durou 90 dias. Outros vizinhos eventualmente apareceram, Anthony ganhou alguma notoriedade, um artigo contando sua história saiu na Medium e outros homens negros em outras cidades começaram a considerar um movimento para proteger mulheres negras vítimas de assédio racial.

Antes da minha carreira em relgov estudei geologia por seis anos e meio, e alguns dos aprendizados levo comigo até hoje. Um deles tem a ver com mapeamento. Aprendi, por exemplo, que um mesmo evento pode ser observado no microscópio numa amostra de rocha em que os minerais foram reorientados, no campo, em que um corte de estrada mostra a direção de um cisalhamento, ou numa imagem de satélite que revela a orientação de uma serra. O que muda é a escala. O evento é o mesmo.

Na sua essência, o comentário de Anthony abrindo este artigo não difere das críticas que a Nike recebeu após postar um vídeo de apoio aos protestos relacionados ao movimento Black Lives Matter (BLM) em maio deste ano. Muitos perguntaram o que a Nike estava fazendo de concreto, pois mesmo articulando uma visão pró BLM, ela não tinha feito o dever de casa: a liderança da empresa era quase exclusivamente branca. Também não difere da crítica direcionada à Amazon numa matéria da E&E, uma newsletter focada em energia e meio ambiente. O título da matéria “115 lobistas da Amazon, 1 para o meio ambiente” diz tudo. O racional da matéria segue a linha do: se o aquecimento global fosse de fato prioridade para a empresa, ela estaria investindo mais no lobby a favor do meio ambiente. 

Este é o novo desafio que se põe para a liderança das empresas em que o apoio a ONGs e cartas abertas — como aquela ao Vice Presidente Mourão em que as empresas pedem por uma política de preservação da floresta Amazônica — ajudam, mas são simbólicas. Das lideranças das empresas espera-se ações concretas, como a de Anthony, em que usam seu poder econômico para efetuar mudança. O famoso “walk the talk” em inglês. E isso cada vez mais se traduz em lobby a favor de uma causa.

Algumas empresas já estão lá. A Patagonia entrou com uma ação legal contra o governo Trump quando este tentou reduzir o tamanho de um parque nacional. O Ben & Jerry apoiou uma petição contra a MP 910, a da grilagem. Nos EUA, empresas como a Ford e VW se aliaram ao estado da Califórnia contra o governo Trump que queria reduzir os padrões mais rígidos de milhagem da Califórnia. E a Apple e a Saleforce fizeram lobby contra projetos de lei estadual que discriminavam a comunidade LGBTQ+. 

Se o advocacy digital várias vezes leva a pecha de click activism, ações bem intencionadas de empresas levarão a pecha de PR activism. A reação de Anthony a campanha #standforjennifer e a reação da sociedade à ações bem intencionadas de empresas é essencialmente a mesma, só muda a escala.  

Artigo publicado inicialmente no Jota 

Lobby’s new frontier

“Be literal. Do exactly what you say you will do.” That’s how Anthony Herron, a rapper from Queens in New York, responded to the hashtag #standforjeniffer.

Jeniffer, a black and single mother of a 2-year-old girl, was being harassed and threatened by a neighbor for 3 years. The police said there was nothing they could do without there being physical aggression. Afraid and without alternatives, she wrote a giant note and fixed it outside her house. Someone saw the note, took a photo of it and posted it on the web. It was the kick-off of the #standforjennifer campaign.

When he saw the campaign, Anthony decided to go beyond symbolically stating his support on a digital platform. He opted for concrete action: a night watch outside Jennifer’s house. He wanted to protect her. Due to the campaign, anyone could find out Jennifer’s address, and he couldn’t rule out the possibility of a more violent act. He would wait until Jennifer’s case was heard by the court. The vigil lasted 90 days. Other neighbors eventually showed up, Anthony gained some notoriety, an article telling his story appeared on Medium, and other black men in other cities began to consider a movement to protect black women who were victims of racial harassment.

Before my career in government relations, I studied geology for six and a half years, and some of the lessons I carry with me since then. One has to do with mapping. I learned, for example, that the same event can be observed under a microscope in a thin slice from a rock sample where the minerals have been reoriented, in the field, where an outcrop shows the direction of a shear, or in a satellite image that reveals the orientation of a mountain ridge. What changes is the scale. The event is the same.

Anthony’s comment opening this article is no different from criticism leveled at Nike’s video in support of the Black Lives Matter (BLM) protests earlier this year. Many asked what Nike had concretly done, because even as it articulated a pro BLM vision, it had not done its homework: the company’s leadership was almost exclusively white. Nor does it differ from criticism directed at Amazon in an E&E article, a newsletter focused on energy and the environment. The title of the article “115 Amazon lobbyists, 1 for the environment” says it all. The rationale of the article follows the line of: if global warming was indeed a priority for the company, it would be investing more in lobbying efforts in favor of the environment.

This is the challenge that corporate leadership will have to deal with. Support for NGOs and open letters – such as the one to Vice President Mourão in which companies ask for environmental policies to protect the Amazon rainforest – help, but are symbolic. Corporate leaders are expected to take concrete actions, like Anthony did, in which they use their economic power to effect change. The famous “walk the talk”. And this increasingly translates into lobbying for a cause.

Some companies are already there. Patagonia filed a lawsuit against the Trump Administration when it tried to downsize a National Park in Utah. Ben & Jerry supported a petition against MP 910, a measure that would have made it easier to legalize public forest land illegally seized. In the U.S., companies like Ford and VW joined the state of California as defendants against the Trump Administration’s suit to role back California’s stricter gas mileage standards. And Apple and Salesforce lobbied against state bills that discriminated against the LGBTQ + community.
If digital advocacy often leads to criticism of click activism, well-intentioned actions by corporations will lead to criticism of PR activism. Anthony’s reaction to the #standforjennifer campaign and society’s reaction to well-intentioned actions by corporations is essentially the same, what changes is the scale.

*Baseado parcialmente em matéria publicada pelo Medium

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