O inesperado legado de Trump

Após a invasão do Congresso em Washington por uma multidão de apoiadores do Presidente Trump — que interrompeu por algumas horas o processo de validação final dos votos para presidente de cada estado — vários CEOs criticaram publicamente a invasão, a violência associada ao episódio e o papel do Presidente como instigador mor da tomada do Capitólio.

Desde os dias que se seguiram aos protestos de Charlottesville em agosto de 2017, quando Trump equalizou grupos neo nazistas e de supremacistas brancos aos grupos que a eles se opuseram, CEOs têm se deparado com uma nova ordem: um entendimento bem mais amplo pela sociedade de qual deveria ser a responsabilidade social das empresas. Neste contexto, o tradicional silêncio corporativo sobre questões sociais passou a ter um custo reputacional. Cobrava-se dos CEOs coerência entre os valores das empresas e de suas ações. O silêncio, como ação, era uma afronta a estes valores. 

Na época, CEOs tiveram que ser fortemente pressionados pelos seus funcionários e sociedade em geral para que se posicionassem. Depois de hesitarem por alguns dias, os CEOs finalmente criticaram a fala do Presidente e saíram em bloco dos grupos empresariais patrocinados pela Casa Branca. Desta vez, no entanto, vários CEOs foram imediatamente a público via suas contas no Twitter, comunicados internos, posts e press releases para defender a democracia, efetivamente tomando partido. 

O CEO da Apple, Tim Cook, foi um dos primeiros a tweetar, no próprio dia da invasão: “O dia de hoje marca um capítulo triste e vergonhoso na história da nossa nação. Os responsáveis por esta insurreição devem ser responsabilizados, e devemos concluir a transição para a administração do presidente eleito Biden. É especialmente quando eles são desafiados que nossos ideais são mais importantes.” O presidente do banco Morgan Stanley, James Dimon, disse: “Nossos líderes eleitos têm a responsabilidade de pedir o fim da violência, aceitar os resultados e, como nossa democracia tem feito por centenas de anos, apoiar a transição pacífica de poder.” Até a Associação Nacional da Indústria Manufatureira (NAM) foi à público para pedir que o vice presidente Pence invocasse a Emenda 25 que permite a remoção do Presidente por uma maioria dos ministros. 

Outro CEO que foi a público foi Mark Zuckerberg, do Facebook. Ele comunicou que a plataforma estava temporariamente (até o dia 20/1 quando Biden assume a presidência) suspendendo a conta do Presidente Trump. “Acreditamos que os riscos de permitir que o presidente continue a usar nossos serviços durante esse período são simplesmente grandes demais”. No entanto, muitos criticaram a ação de Zuckerberg como tardia. Ao longo dos últimos anos, a plataforma sistematicamente empurrou com a barriga ações concretas para conter a desinformação, deixando a impressão que estava mais preocupada com o bottom line. Uma ação, por mais que correta, aos 44 minutos do segundo tempo, não é muito convincente e está sujeita a interpretações de oportunismo.

Passados alguns dias da invasão, empresas e seus CEOs estão tomando medidas mais fortes para proteger a legitimidade do processo democrático colocado em xeque pelo Presidente Trump. Elas foram atrás dos deputados republicanos que votaram contra a validação dos votos do colégio eleitoral, criando um novo e poderoso precedente. Isto é, empresas estão usando seu poder econômico em linha com seus valores e penalizando membros do Congresso.  

A cadeia de hotéis Mariott, a empresa de seguros de saúde Blue Cross Blue Shield e o banco regional Commerce estavam entre as primeiras empresas a anunciarem que interromperiam suas contribuições de campanha para os Republicanos que se aliaram a mentira do Presidente (de que a eleição havia sido roubada) e votaram contra a validação dos votos. Outras empresas, como Google, Facebook, Amazon, AT&T, Coca Cola, Morgan Stanley e Dow anunciaram logo na sequência que também suspenderiam por tempo indeterminado suas contribuições de campanha a estes membros do Congresso. 

Situações extraordinárias convidam ações fora do comum. A tentativa de golpe pelo Presidente Trump é uma destas situações extraordinárias e algumas empresas estão respondendo à altura. Mesmo que o presidente esteja de saída, minimizando o risco de retaliação pelo Executivo, os deputados têm mais dois anos de mandato. 

Assim Trump deixa um legado inesperado, o de empresas prontas para defender a democracia, vivenciando plenamente seu papel de cidadãos corporativos. Quem sabe num futuro próximo mais empresas assumam seu papel cidadão, além de utilizar seu poder econômico para avançar outras causas em prol do bem comum.

Este artigo foi inicialmente publicado no Jota https://bit.ly/3icOz5O

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