A corrida por capital social

“A Amazon apoia o projeto de lei para aumento do salário” diz um release da empresa nos EUA escrito por Jay Carney, VP sênior para assuntos corporativos globais. O projeto, que estipula o aumento do salário mínimo nos Estados Unidos dos atuais US$7.25 para US$15.00 em 2025, faz parte da plataforma de governo do Presidente Biden, mas sofre oposição, em termos gerais, pelo partido republicano. De um lado, aqueles que acreditam que depois de quase 12 anos sem ajuste no valor do salário mínimo, uma atualização é mais do que necessária para reduzir a inequidade econômica no país, do outro, aqueles que acreditam que o aumento da salário mínimo irá dizimar pequenas empresas e aumentar o desemprego. Mesmo neste ambiente polarizado, a Amazon está fazendo lobby a favor do projeto e indo à público com a sua posição.

Fica a pergunta, “por que?” Por que a Amazon recentemente comprou uma página inteira no New York Times anunciando em letras garrafais que: “Está na hora de aumentar o salário mínimo federal”, ou, por que a empresa twittou videos com seus funcionários que falavam bem da política da empresa (a Amazon oferece aos seus funcionários um salário mínimo de US$15.00/hora desde outubro de 2018)?

O motivo me parece óbvio: a empresa acredita que o tema tem apelo, tanto do ponto de vista reputacional, como para retenção e atração de novos funcionários. Ir a público com um posicionamento sobre um projeto de lei passou a ser estratégia de RP, no entanto, deve-se estar preparado para as críticas.  

Por exemplo, quando a Amazon lançou a campanha advogando por um salário mínimo de US$15/hora, reações no Twitter e algumas matérias online foram bem negativas. Havia acusações de que a empresa estava tentando minar esforços para constituir sindicatos em suas operações de armazenagem, de que tudo não passava de uma ação para forçar seus concorrentes a também incorporarem um salário mínimo de US$15,00/hora, de que a adoção do salário mínimo havia permitido a empresa reduzir o salário de certos trabalhadores ou que era puramente uma ação de RP. Verdade ou não, não deixa de ser irônico que segmentos mais a esquerda (que a anos advogam por um salário mínimo de US$15,00/hora) optaram por atacar uma empresa que já implementou a medida. É que o histórico da Amazon e sua relação com a sociedade em temas de seu interesse têm sido conturbada, afetando a confiança nela depositada. A empresa coleciona uma série de embates com a sociedade em temas que vão desde a proteção do meio ambiente até o monitoramento de funcionários interessados em criar um sindicato.

Exemplo distinto vem da Apple. Seu CEO, Tim Cook, recentemente tweetou que apoiava o Projeto de Lei da Igualdade, que proíbe em lei federal a discriminação com base no sexo, orientação sexual e identidade de gênero. “O Projeto da Igualdade reflete na lei o fato de que toda pessoa merece dignidade e respeito, independentemente da orientação sexual ou identidade de gênero – no trabalho, em casa e em praça pública. Apoiamos fortemente sua aprovação e encorajamos o Congresso a se reunir e fazer isso”. Mas esta não foi a primeira vez que a Apple se posicionou publicamente a favor dos direitos da comunidade LGBTQ+. A Apple apoiou o mesmo PL em 2015, quando foi apresentado na Câmara dos Deputados, e se posicionou contra iniciativas em assembléias estaduais que permitiríam a discriminação contra a comunidade LGBTQ+ usando a liberdade religiosa como pretexto.

As reações aos posicionamentos não poderiam ter sido mais diferentes, não só pela natureza dos temas, mas também devido ao capital social acumulado por ambas. Enquanto que a Amazon sempre se vangloriou de ter uma cultura de trabalho que persegue ferozmente seus objetivos em prol do consumidor, passando por cima de tudo e todos, a Apple tomou outra direção, focando no design, na privacidade e nos direitos da comunidade LGBTQ+. Mesmo que ambas tenham o consumidor num pedestal, a Apple acumulou capital social consideravelmente superior ao da Amazon e esta, finalmente, está correndo atrás do prejuízo.

Artigo primeiramente publicado no Jota.

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