Maioria no Twitter rejeita privatização da Eletrobrás

À exceção de Tico Santa Cruz, ausência de celebridades marca debate online

Felipe Neto mal se pronunciou sobre a privatização da Eletrobrás, mas a pressão para que se posicionasse foi grande. De acordo com a empresa de inteligência de dados Tukey Data, foram mais de 1.200 tweets contrários à privatização da estatal que mencionaram o influenciador, muitos deles pedindo para que se posicionasse contra a privatização (veja exemplos abaixo), que foi aprovada pela Câmara neste último dia 21. Em tempos em que política pública é amplamente debatida nas redes, a pressão da sociedade não recai somente sobre os decisores (os mais mencionados no Twitter em ordem decrescente foram os Senadores Rodrigo Pacheco, Irajá, Mara Gabrilli e Carlos Portinho), mas também sobre os influenciadores. 

Mas não foi somente Felipe Neto que ficou de fora desta discussão. A exceção do vocalista Tico Santa Cruz, nenhum grande influenciador aparece entre os nomes mais mencionados no Twitter (veja figura abaixo). Talvez porque o PL 490 que trata da demarcação de terras indígenas e direitos dos povos indígenas tenha chamado mais a atenção das celebridades. Mesmo sem grandes influenciadores participando do debate, entre os dias 1 e 27/6, o mundo online foi ao Twitter se manifestar sobre a MP1031, a medida provisória que permite a diluição do capital social da Eletrobrás. Foram quase 75.500 tweets. De acordo com a Tukey Data, destes, 75.000 foram contra a privatização e somente 400 a favor. 

O debate nas redes se resumiu a umas poucas palavras de efeito. Entre aqueles a favor da privatização prevaleceram palavras como corrupção, cabide de empregos e Brasil, as duas primeiras certamente um reflexo dos repetidos escândalos de corrupção envolvendo empresas públicas e da prática costumeira entre muitos políticos de utilizarem estatais para o enriquecimento próprio ou de seus aliados. Entre aqueles contra a privatização, as palavras mais frequentes no Twitter foram Brasil, povo, aumento da conta de luz e apagão. 

Os dois lados convergem ao apelar ao patriotismo — Brasil está entre as palavras mais repetidas em cada grupo. Mas há uma diferença importante entre os dois lados. Entre os favoráveis à privatização as palavras, na sua maioria, expressam valores, ou uma visão de mundo em que estatais são ineficientes servindo de cabide de emprego para a esquerda e de fonte financeira para políticos corruptos. Entre os contrários à privatização, as palavras mais utilizadas — além de refletirem ideias como a de que a Eletrobrás é do povo e patrimônio do Brasil — refletem uma preocupação com o aumento do custo das tarifas elétricas e com os apagões. Isto é, valores e questões relevantes para o dia a dia do consumidor conectaram com o cidadão.

Esta diferença fica ainda mais clara quando observamos o gráfico abaixo preparado pela Tukey Data. O hashtag mais repetido entre os que se opuseram à privatização é #vaiaumentaracontadeluz, enquanto que o hashtag mais repetido entre os que são favoráveis à privatização foi #privatizaeletrobrás. Outro ponto interessante é que a mobilização contra a MP1031 começou bem mais cedo do que a mobilização a favor dela, com picos em torno de 6.000 tweets quando a sociedade começou a pressionar o Presidente do Senado, Senador Rodrigo Pacheco, a não pautar a MP. 

Mobilizar a sociedade nas redes é sempre um desafio. No meu livro, Lobby Digital: como o cidadão conectado influencia as decisões de governos e empresas, falo de cinco princípios que podem ajudar (mas não garantem) que uma ideia pegue. A mensagem deve ser simples, concreta, fácil de entender, humana e relevante. Além do mais deve levar em conta que vivemos em sociedades de valores, em que o debate em torno de uma política pública várias vezes é pautada por valores e não por uma conversa técnica sobre o impacto financeiro dos jabutis (medidas estranhas ao texto original da proposta) que foram inseridos pela Câmara. Por fim, o mensageiro pode fazer a diferença. A ausência de celebridades do calibre do Felipe Neto e Anitta, com seus milhões de seguidores, pode ter limitado a força do movimento online. Qualquer que seja o motivo, desta vez o Congresso seguiu na contramão da maioria no Twitter.  

Artigo inicialmente publicado no Jota

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