Tuitaço e artigo de opinião disparam debate sobre regulação de entregadores de apps

Um tuitaço (#apagãodosapps) organizado pelo Movimento dos Entregadores Antifascistas em 23/7 marcou a passagem de um ano desde o protesto dos entregadores de aplicativos em julho de 2020. Muitos ainda devem se lembrar do dia em que ondas de motoboy tomaram várias ruas da cidade de São Paulo para pedir melhores condições de trabalho em meio à pandemia. À frente do tuitaço de 2021, Paulo Lima, idealizador do Movimento dos Entregadores Antifascistas e conhecido nas redes sociais como @galodeluta (vide gráfico abaixo de autoria de Arcelino Neto).

O tuitaço pedia para que os consumidores deixassem de fazer pedidos por um dia e informava sobre uma greve dos entregadores com data a ser definida. De acordo com um artigo no iG, até o meio do dia do protesto online, o hashtag do Movimento estava em segundo lugar nos trending topics do Twitter.

Um dia antes do tuitaço, o iFood, a maior empresa de delivery da América Latina, anunciou publicamente sua intenção de criar, de forma colaborativa, um marco regulatório para os entregadores. Em um artigo de opinião no jornal Folha de S. Paulo e no canal de notícias do iFood no Twitter, o CEO do iFood, Fabricio Bloisi, disse: “O iFood está pronto e aberto para estabelecer um diálogo com o legislativo, o executivo, a academia, a sociedade civil organizada e, claro, os próprios trabalhadores de plataformas digitais e os aplicativos que se utilizam desses profissionais. A ideia … é abrir caminho para se construir, coletivamente, um marco regulatório que não obrigue o trabalhador de plataformas digitais a escolher entre ter mais benefícios e segurança na atividade ou ter menos flexibilidade e autonomia”.

O tuitaço e o gesto do iFood mostram uma nova realidade, em que empresas precisam criar canais de comunicação com movimentos sociais difusos e ir a público com sua posição.

Só assim a empresa irá acumular o capital social (que combina confiança e conexão) necessário para sua atuação.

Em Nova Iorque, o custo de não seguir esta linha ficou claro. Lá, o “Los Deliveristas Unidos” — movimento de entregadores formado principalmente por imigrantes mexicanos e guatemaltecos — barraram uma proposta de projeto de lei que havia sido negociada entre empresas de tecnologia e alguns sindicatos (deixando de fora o movimento de entregadores). É que a proposta teria proibido as paralisações e protestos como também a criação de um piso salarial local, que para o “Los Deliveristas Unidos” era inaceitável. Sergio Ajche, um dos líderes do movimento, disse numa entrevista: “Para nós este projeto de lei não vale a pena, erode o poder dos trabalhadores. Acho uma bobagem que estas empresas tentem avançar isso às escondidas, já que estamos organizados na base.”

O “Los Deliveristas Unidos” já realizou duas paralisações, a última em abril deste ano, com a participação de mais de 2.000 entregadores e o apoio de um sindicato local. Fundada em dezembro de 2020 pela ONG Worker’s Justice Project, as demandas dos entregadores pouco diferem daquelas de seus pares no Brasil. Incluem, além de um piso salarial e direito à greve, acesso aos banheiros dos restaurantes de onde buscam os pedidos, espaço que os proteja do tempo e equipamento de proteção durante a pandemia. Outra demanda dos entregadores de Nova Iorque é uma maior atenção da polícia ao aumento do número de roubos de suas bicicletas elétricas (que custam em torno de US$ 1.500).

Particularidades à parte, o desafio no Brasil e nos EUA é o mesmo: encontrar um meio termo entre os direitos e benefícios do empregado com vínculo empregatício e daquele que é autônomo. Para chegar lá, empresas de tecnologia terão que lidar com um stakeholder que vai ganhando poder — movimentos de base sem filiação formal, que conversam via WhatsApp, coordenam suas ações nas redes e vão para a rua protestar.

O engajamento em causas sociais e o desafio do debate nas redes

A urgência de traduzir o aquecimento global para o dia a dia do cidadão

Felipe Neto recentemente desabafou: “Estamos alertando faz tempo. Meus tweets sobre os projetos de lei que vão destruir as florestas recebem quase nenhuma repercussão. Ninguém se importa. The Guardian decidiu publicar: SE BOLSONARO CONTINUAR PRESIDENTE, A FLORESTA AMAZÔNICA VAI COLAPSAR!

Talvez “ninguém se importa” não tenha sido a melhor maneira dele se expressar; inclusive teve gente que respondeu ao tweet dizendo que se importava sim. De acordo com uma pesquisa do IBOPE realizada em outubro de 2020, uma ampla maioria de 77% dos brasileiros acreditam que proteger o meio ambiente é uma prioridade. Mas o desabafo faz sentido; um tweet dele mostrando um cachorro que pinta ganhou mais likes e comentários do que o tweet sobre os PLs. Infelizmente é difícil engajar as pessoas em temas complexos em que causa e efeito não são óbvios. 

O tweet do Felipe Neto tinha endereço certo: o PL 2633 que acabava de ter seu pedido de urgência aprovado pela Câmara dos Deputados, com risco de ser aprovado em Plenário. O projeto de lei — apelidado de PL da Grilagem por aqueles que a ele se opõe — facilita a legalização de terras da União que foram ilegalmente ocupadas e desmatadas, particularmente na Amazônia. 

A conversa no Twitter em torno do PL (#PL2633Não, #GrilagemNão e #GrilagemÉCrime) ficou bastante centrada nos ativistas, ONGs e celebridades. Houve também matérias na mídia internacional (vide referência do Felipe Neto à matéria do The Guardian) e pressão de algumas empresas européias. Em uma nova carta aberta ao Congresso Brasileiro (a primeira veio quando o governo Bolsonaro enviou ao Congresso a MP 910 tratando do mesmo tema) vários supermercados e empresas alimentícias européias voltaram a ameaçar o Brasil com um boicote caso o PL 2633 fosse aprovado. O que faltou foi uma participação mais robusta do cidadão e das empresas brasileiras. Por exemplo, no ano passado, durante a mobilização para que o Congresso deixasse caducar a MP 910, a Ben & Jerry Brasil (multinacional) apoiou uma petição neste sentido, enquanto várias empresas nacionais assinaram carta ao Vice presidente Mourão expressando preocupação com a preservação do meio ambiente.

Desde então as coisas só pioraram. Nas últimas semanas, os desastres ecológicos e humanitários se multiplicaram mundo afora: inundações na Alemanha e Países Baixos, frente de calor no Canada e oeste dos EUA e incêndios nas florestas da Sibéria, Califórnia e Oregon. Todos corroborando com a noção de que o aquecimento global agrava eventos climáticos, trazendo mortes e prejuízos econômicos. Isto é, infelizmente estamos vendo o efeito do aquecimento global hoje.

Não é só lá fora. A revista Nature acabou de publicar um artigo sobre estudo que mostra que o sul e sudeste da floresta amazônica está transicionando de um sistema que absorve CO2 para um que emite, consequência do desmatamento e aumento da temperatura. Outra notícia, esta coberta amplamente pela mídia nacional, é que entre setembro de 2020 e março de 2021 as hidrelétricas receberam o menor volume de chuvas em 91 anos. E em abril a situação piorou. Por último, um outro estudo do qual participou a Universidade Federal de Viçosa (UFV) quantificou o prejuízo do desmatamento ao agronegócio brasileiro. Nele os autores afirmam que o desmatamento do Cerrado e Amazônia fez com que os produtores de soja deixassem de ganhar, em média, US$ 1.3 bilhões anualmente entre 1985 e 2012, com projeção de prejuízos na ordem de US$4 bilhões por ano até 2050. Que neste contexto o Congresso Brasileiro ainda se sinta à vontade para pautar o PL 2633 em regime de urgência, mostra que o status quo ainda tem força, que as empresas e setores que mais tem a perder com o aquecimento global e a imagem negativa do país lá fora ainda não se sentem comfortáveis de ir a público e pressionar abertamente o Congresso, e que a sociedade, em grande parte, ainda entende o aquecimento global como algo importante mas abstrato.

Os dois estudos que menciono acima e que foram compartilhados nas redes sociais são técnicos e de difícil tradução para o dia a dia do cidadão. Para o consumo de conteúdo online de vez em quando basta trazer o tema para a realidade de cada um, como fez a Deputada Norte Americana Alexandria Ocasio-Cortez em discurso no plenário da Câmara em que fala do impacto aos seus constituintes do incêndio florestal no outro lado dos EUA: “Não se trata mais de teoria, nem sobre desafiar a ciência. Na cidade de NY, ontem, as pessoas acordaram tendo mais dificuldade de respirar e de ver o horizonte por causa da fumaça do incêndio Bootleg lá em Oregon, vindo para a nossa cidade.” 

De acordo com a mesma pesquisa do IBOPE, 72% dos brasileiros acreditam que o aquecimento global pode prejudicá-los e prejudicar muito as suas famílias. Meio caminho andado. Ainda falta transformar a conscientização em ação.

Maioria no Twitter rejeita privatização da Eletrobrás

À exceção de Tico Santa Cruz, ausência de celebridades marca debate online

Felipe Neto mal se pronunciou sobre a privatização da Eletrobrás, mas a pressão para que se posicionasse foi grande. De acordo com a empresa de inteligência de dados Tukey Data, foram mais de 1.200 tweets contrários à privatização da estatal que mencionaram o influenciador, muitos deles pedindo para que se posicionasse contra a privatização (veja exemplos abaixo), que foi aprovada pela Câmara neste último dia 21. Em tempos em que política pública é amplamente debatida nas redes, a pressão da sociedade não recai somente sobre os decisores (os mais mencionados no Twitter em ordem decrescente foram os Senadores Rodrigo Pacheco, Irajá, Mara Gabrilli e Carlos Portinho), mas também sobre os influenciadores. 

Mas não foi somente Felipe Neto que ficou de fora desta discussão. A exceção do vocalista Tico Santa Cruz, nenhum grande influenciador aparece entre os nomes mais mencionados no Twitter (veja figura abaixo). Talvez porque o PL 490 que trata da demarcação de terras indígenas e direitos dos povos indígenas tenha chamado mais a atenção das celebridades. Mesmo sem grandes influenciadores participando do debate, entre os dias 1 e 27/6, o mundo online foi ao Twitter se manifestar sobre a MP1031, a medida provisória que permite a diluição do capital social da Eletrobrás. Foram quase 75.500 tweets. De acordo com a Tukey Data, destes, 75.000 foram contra a privatização e somente 400 a favor. 

O debate nas redes se resumiu a umas poucas palavras de efeito. Entre aqueles a favor da privatização prevaleceram palavras como corrupção, cabide de empregos e Brasil, as duas primeiras certamente um reflexo dos repetidos escândalos de corrupção envolvendo empresas públicas e da prática costumeira entre muitos políticos de utilizarem estatais para o enriquecimento próprio ou de seus aliados. Entre aqueles contra a privatização, as palavras mais frequentes no Twitter foram Brasil, povo, aumento da conta de luz e apagão. 

Os dois lados convergem ao apelar ao patriotismo — Brasil está entre as palavras mais repetidas em cada grupo. Mas há uma diferença importante entre os dois lados. Entre os favoráveis à privatização as palavras, na sua maioria, expressam valores, ou uma visão de mundo em que estatais são ineficientes servindo de cabide de emprego para a esquerda e de fonte financeira para políticos corruptos. Entre os contrários à privatização, as palavras mais utilizadas — além de refletirem ideias como a de que a Eletrobrás é do povo e patrimônio do Brasil — refletem uma preocupação com o aumento do custo das tarifas elétricas e com os apagões. Isto é, valores e questões relevantes para o dia a dia do consumidor conectaram com o cidadão.

Esta diferença fica ainda mais clara quando observamos o gráfico abaixo preparado pela Tukey Data. O hashtag mais repetido entre os que se opuseram à privatização é #vaiaumentaracontadeluz, enquanto que o hashtag mais repetido entre os que são favoráveis à privatização foi #privatizaeletrobrás. Outro ponto interessante é que a mobilização contra a MP1031 começou bem mais cedo do que a mobilização a favor dela, com picos em torno de 6.000 tweets quando a sociedade começou a pressionar o Presidente do Senado, Senador Rodrigo Pacheco, a não pautar a MP. 

Mobilizar a sociedade nas redes é sempre um desafio. No meu livro, Lobby Digital: como o cidadão conectado influencia as decisões de governos e empresas, falo de cinco princípios que podem ajudar (mas não garantem) que uma ideia pegue. A mensagem deve ser simples, concreta, fácil de entender, humana e relevante. Além do mais deve levar em conta que vivemos em sociedades de valores, em que o debate em torno de uma política pública várias vezes é pautada por valores e não por uma conversa técnica sobre o impacto financeiro dos jabutis (medidas estranhas ao texto original da proposta) que foram inseridos pela Câmara. Por fim, o mensageiro pode fazer a diferença. A ausência de celebridades do calibre do Felipe Neto e Anitta, com seus milhões de seguidores, pode ter limitado a força do movimento online. Qualquer que seja o motivo, desta vez o Congresso seguiu na contramão da maioria no Twitter.  

Artigo inicialmente publicado no Jota

Nas sociedades de valores, basta acreditar numa causa

“Você não precisa ser LGBT para lutar contra a LGBTfobia”, diz Leozinho no seu tweet apoiando a campanha online para derrubar o PL 504, que estava tramitando na Assembléia Legislativa de São Paulo (ALESP). Leozinho não recebeu muitos likes, mas seu convite resume bem a essência das campanhas na web: elas são pautadas por valores. Você não precisa ser LGBTQIA+ para apoiar a causa e dedicar alguns minutos do seu tempo para retwittar uma mensagem, compartilhar uma chamada a ação no Instagram ou enviar um e-mail para os vereadores da ALESP. Basta acreditar na causa.

Esta realidade não passou despercebida pelas várias empresas que aderiram em massa à campanha. É que o cidadão consumidor de produtos e serviços também é um consumidor de valores. Este cidadão quer ver sua visão de mundo espelhada na marca do produto que irá consumir. Assim, Coca Cola, Burger King, Unilever, Gol, Americanas, Submarino, Alpargatas, Quinto Andar, Claro, CNN Brasil e tantas outras se posicionaram contra o PL que, caso fosse aprovado, proibiria a veiculação de publicidade que “contenha alusão a preferências sexuais e movimentos sobre diversidade sexual relacionados a crianças”. Para a autora do projeto de lei, a Deputada Estadual Marta Costa (PSD), a presença de pessoas LGBTQIA+ traria “desconforto emocional à inúmeras famílias” e mostraria “práticas danosas” às crianças.

A tomada de posição sobre temas sociais como forma de sinalizar à sociedade os valores da empresa ganha cada vez mais força no Brasil. Nos EUA, no entanto, já tem pesquisa mostrando seus benefícios para a reputação. Uma pesquisa recente da Axios/Harry’s 100 sobre a reputação das empresas mais visíveis nos EUA traz a Patagonia — que tem o ativismo corporativo impregnado no seu DNA — como número 1 no ranking de reputação. Os autores do estudo notam que empresas que se posicionaram mais a esquerda ou direita do espectro político estão se tornando cada vez mais populares.  

No caso do PL 504, as empresas compartilharam breves posicionamentos contrários ao PL usando hashtags como #AbaixoPL504 e #LGBTNãoéMáInfluência, mas umas poucas foram além e incluíram um link à ALESP de forma que pessoas pudessem facilmente enviar e-mails aos vereadores. Entre elas o Magalu que desponta como uma das empresas brasileiras mais engajadas em temas sociais, como o racismo e a violência contra as mulheres, abraçando o capitalismo de stakeholders. E algo certo devem estar fazendo. O Magazine Luiza ficou com a primeira posição em um ranking global sobre retorno total para os acionistas realizado pela consultoria BCG.  

Agências de publicidade também se posicionaram publicamente contra o PL. Teve até campanha no Linkedin, organizada pelo Comitê de Diversidade da Mutato, convidando o setor a “discutir como evitar que ameaças como esta impactem conquistas importantes da comunidade LGBTQIAP+.” Isto tudo num ambiente extremamente polarizado.

A mobilização da sociedade nas redes, com a participação das empresas, de influenciadores como Quebrando o Tabu, Alexandra Gurgel e Leandra Leal, da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) e da Deputada Estadual Malunguinho (PSOL) e Vereadora Erika Hilton (PSOL), rapidamente criou uma massa crítica de oposição pública ao PL 504 que ajudou a abrir espaço para que uma emenda da Vereadora Manguinho (eliminando o conteúdo anti LGBTQIA+) fosse aprovada pela Assembléia. 

Uma análise da Consultoria A Estratégia entre os dias 14 de abril e 3 de maio mostra o tamanho da campanha nas redes sociais. Ela somou mais de 1.7 milhões de interações (curtidas e comentários) e quase 14 mil menções (excluindo retweets) no Twitter, Instagram e Facebook. De acordo com a consultoria, a evolução do tema nas redes começou com uma ação offline coordenada pela Deputada Erica Malunguinho e teve seus dois maiores picos (em torno de 3.000 cada) nos dias de votação: no dia 20, mas em que a votação acabou sendo adiada, e no dia 22 quando a Assembléia aprovou a emenda de autoria da Deputada Malunguinho (Fig 1).

Fig. 1 – Volume de menções (fonte: A Estratégia) 

Os números mostram a força do cidadão stakeholder. São deles os milhões de tweets, posts e e-mails deixando claro o que pensam sobre o tema. Em sociedades em que valores pautam política pública, serão valores que irão mobilizar o cidadão — na hora de votar, na hora de se posicionar nas redes e até na hora de comprar um tênis.

Links adicionais

Petição da Allout – https://www.paulista.alloutbrasil.org/

Posts no Insta #abaixoPL504 https://www.instagram.com/explore/tags/abaixopl504/

ABGLT Oficial  https://www.instagram.com/abglt.oficial/

ABGLT – O que é o PL 504/20  https://www.instagram.com/p/COBkkUTHOv7/

Dep. Malunguinho – video https://www.instagram.com/p/CNz-2EhnuYs/

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“You don’t need to be LGBT to fight LGBTphobia”, says Leozinho in his tweet supporting the online campaign to defeat Bill 504, that was being considered in the Legislative Assembly of São Paulo (ALESP). Leozinho’s tweet didn’t receive many likes, but his invitation sums up the essence of web campaigns: they are based on values. You don’t need to be LGBTQIA+ to support the cause and dedicate a few minutes of your time to retweet a message, share a call to action on Instagram or send an email to ALESP legislators. You only need to believe in the cause.

This reality did not go unnoticed by the various companies that joined the campaign en masse. The consumer of products and services is also a consumer of values. These consumers want to see their worldview mirrored in the brand of the product they will buy. Thus, Coca Cola, Burger King, Unilever, Gol, Americanas, Submarino, Alpargatas, Quinto Andar, Claro, CNN Brasil and many others took a stand against the bill which, if approved, would have prohibited the placement of advertising that “contains an allusion to sexual preferences or sexual diversity movements related to children”. For the author of the bill, State Deputy Marta Costa (PSD), the presence of LGBTQIA+ in an ad would bring “emotional discomfort to countless families” and show “harmful practices” to children.

Taking a stand on social issues as a way of signaling the company’s values ​​to society is gaining more and more acceptance in Brazil. In the US, however, there’s already research showing the benefits to corporate reputation. A recent survey by Axios/Harry’s 100 about the reputation of the most visible companies in the US ranks Patagonia — which has corporate activism in its DNA — as #1 in the reputation ranking. The study’s authors note that companies that have positioned themselves further to the left or right of the political spectrum are becoming increasingly popular.

In the case of Bill 504, companies shared brief positions against the Bill using hashtags such as #AbaixoPL504 and #LGBTnãoéMáInfluencia, but a few went further and included a link to ALESP so that people could easily send e-mails to the legislators. Among them, Magalu, which emerges as one of the Brazilian companies most engaged in social issues, such as racism and violence against women, embracing stakeholder capitalism. And something right they must be doing. Magazine Luiza took first place in a global ranking on total shareholder return carried out by the consulting company BCG.

Advertising agencies also took a public stand against the Bill. There was even a Linkedin campaign, organized by Mutato’s Diversity Committee, inviting peer companies to “discuss how to prevent threats like this from impacting important victories of the LGBTQIAP+ community.” All this took place in an extremely polarized environment.

Society’s mobilization on social media, with the participation of companies, influencers such as Quebrando o Tabu, Alexandra Gurgel and Leandra Leal, the National Association of Transvestites and Transsexuals (ANTRA) and State Deputy Malunguinho (PSOL) and Councilor Erika Hilton (PSOL ), quickly created a critical mass of public opposition to Bill 504 that helped set the stage for an amendment by State Representative Manguinho (eliminating anti-LGBTQIA+ content) to be approved by the Assembly.

An analysis by the Consultancy A Estratégia between April 14 and May 3 shows the strength of the campaign on social media platforms. The campaign had more than 1.7 million interactions (likes and comments) and nearly 14 thousand mentions (excluding retweets) on Twitter, Instagram, and Facebook. According to the consultancy, the campaign started with an offline action coordinated by State Representative Erica Malunguinho and had its two biggest peaks (around 3,000 each) on voting days: on the 20th (that day, however, the vote was postponed) and on the 22nd, when the Assembly approved the amendment authored by Deputy Malunguinho (Fig 1).

Fig. 1 – Volume of mentions (source: A Estratégia)

The numbers highlight the power of the citizen stakeholder. Millions of tweets, posts, and emails madeit clear what they think about the issue. In societies where values ​​guide public policy, it will be values ​​that will mobilize the citizen – when voting, when positioning themselves on social media, and even when buying sneakers.

Direito ao voto na agenda do CEO

Nas redes, boicote e pressão para que empresas usem seu capital político para barrar medidas que possam impactar o acesso ao voto de minorias e comunidades negras

O direito ao voto é o novo tema social a bater na porta dos CEOs das grandes empresas norte americanas. No Brasil, a campanha do Burger King contra o voto em branco e nulo veio antes do seu tempo. Faltavam alguns dias para as eleições presidenciais de 2018, quando a cadeia de fast food lançou sua campanha na TV e nas redes sociais. Pedestres que passavam na frente de uma loja da rede tinham a opção de marcar numa urna como votariam. Caso indicassem que pretendiam votar nulo ou em branco eles recebiam um hamburger com maionese e cebola. Um dos participantes então lê em voz alta os dizeres no papel de embrulho: “Este é o Whopper em branco, um sanduíche com ingredientes escolhidos por outra pessoa. Quando alguém escolhe no seu lugar, não dá pra reclamar do resultado.” A campanha deu muito o que falar, mas nada comparado ao que está acontecendo hoje nos EUA.

Nos EUA, o pivô são duas empresas: a Delta e a Coca Cola, ambas sediadas no estado da Georgia. O tema é o mesmo: direito ao voto, mas com contornos bem distintos. A Delta e a Coca Cola foram as primeiras a serem catapultadas para o centro de um debate nacional, que começou com a decisão da Assembléia Legislativa da Georgia — controlada por republicanos — de aprovar uma lei que, dependendo do ponto de vista, impacta o acesso ao voto de minorias e populações negras ou evita a fraude. A lei, resultado da narrativa do ex Presidente Trump de que as eleições presidenciais foram roubadas, traz novas exigências para o voto via correio (o assim chamado absentee ballot), reduz o número de urnas eleitorais (as drop off boxes), aumenta o controle da legislatura sobre a junta eleitoral estadual e criminaliza a distribuição de água e comida para pessoas esperando na fila para votar, dentre outras medidas. 

Nas semanas que antecederam a votação na Georgia, a sociedade civil organizada pediu para que empresas como a Delta se posicionassem contra o então projeto de lei. Mas o CEO da Delta não se manifestou. Quando a lei foi aprovada, ela ganhou as manchetes dos principais jornais do país, e da noite para o dia, a notícia estava trending nas redes sociais. No Twitter, perguntava-se porque a Delta, a Coca Cola, o Home Depot, dentre outras empresas sediadas no estado, não haviam usado seu poder político e econômico para fazer lobby e barrar a aprovação da lei. Será que as empresas não se importavam com o direito ao voto?

No Twitter começaram a circular posts pedindo para boicotar a Delta e a Coca Cola (#boycottDelta e #boycottCocaCola). Um dos tweets dizia: “Acho que vou ter Rum e Pepsi – Eu sei, não parece certo, mas também não é certo a relutância da @CocaCola em não usar sua força política após de ter dito que apoia “uma abordagem equilibrada para as eleições”. 

Não demorou muito e alguém vazou um memorando interno da Delta que falava como o time de lobby estadual havia atuado para “melhorar” o então projeto de lei. Por exemplo, o texto original incluia uma provisão que teria impedido que as eleições ocorressem no domingo, dia em que igrejas negras* tradicionalmente organizam caravanas para que seus frequentadores possam votar. Mesmo que a empresa tenha atuado para “melhorar” o PL, faltou transparência e compromisso público. E como a opinião de muitos é a de que a lei fere o direito ao voto, ficou parecendo que a Delta estava de acordo com o projeto final e alinhada ao governador, também republicano. O memorando não pegou bem e o CEO da Delta viu-se obrigado a publicamente afirmar que era contrário a Lei. Mas ai já era tarde; lei é lei e só deixa de ser lei se for revogada. 

O posicionamento tardio criou um duplo problema para a Delta. Por terem se manifestado contrários a Lei, o cidadão conservador também passou a apoiar um boicote. Um tweet dizia: “Aqui vamos nós, corporações que querem ditar para você o que a política e as leis eleitorias devem ser. Não é da conta deles.”

Rapidamente o foco se deslocou para o Texas, onde a Assembléia Estadual está considerando uma lei similar a da Geórgia. Tendo aprendido com a Delta, a American Airlines e a Dell Technologies, ambas sediadas no estado, já se manifestaram publicamente contra o projeto de lei.

Outras iniciativas foram aparecendo. Vários executivos negros proeminentes, dentre eles o CEO da Merck e ex CEO da American Express, assinaram uma carta conjunta pedindo para que seus pares se posicionem e utilizem sua força política para intervir contra os vários projetos de lei estaduais que tratam do mesmo tema, mais de 100 CEOs de empresas (dentre elas Levis, Merck, Walmart e United) organizaram uma reunião via Zoom para discutir a questão e outras (incluindo Google, Starbucks, GM e Amazon) assinaram uma carta aberta publicada no New York Times condenando ações que possam restringir o acesso ao voto. A carta, entitulada Defendemos a Democracia, diz: “Todos devemos nós sentir responsáveis pela defesa ao direito ao voto e opor qualquer medida legislativa discriminatória que restringe ou impede o eleitor de ter a mesma oportunidade de votar.”

Está difícil ficar em cima do muro ou esperar para se posicionar. Além do mais, existe uma pressão crescente para que empresas atuem de forma concreta e transparente via ações econômicas (redirecionamento de investimento de um estado para outro) e lobby. Só que ao assumirem valores alinhados a uma agenda liberal, as empresas estão andando em terreno perigoso. Não faltam ameaças de retaliação por parte dos republicanos, inclusive pelo Presidente do Senado. Neste novo ambiente, o Burger King Brasil saiu-se bem, mas a Delta escorregou.

*O termo se refere as congregações e denominações cristãs nos EUA que ministram predominantemente para afro americanos. Fonte: wikipedia

Este artigo foi publicado primeiramente no Jota.

A corrida por capital social

“A Amazon apoia o projeto de lei para aumento do salário” diz um release da empresa nos EUA escrito por Jay Carney, VP sênior para assuntos corporativos globais. O projeto, que estipula o aumento do salário mínimo nos Estados Unidos dos atuais US$7.25 para US$15.00 em 2025, faz parte da plataforma de governo do Presidente Biden, mas sofre oposição, em termos gerais, pelo partido republicano. De um lado, aqueles que acreditam que depois de quase 12 anos sem ajuste no valor do salário mínimo, uma atualização é mais do que necessária para reduzir a inequidade econômica no país, do outro, aqueles que acreditam que o aumento da salário mínimo irá dizimar pequenas empresas e aumentar o desemprego. Mesmo neste ambiente polarizado, a Amazon está fazendo lobby a favor do projeto e indo à público com a sua posição.

Fica a pergunta, “por que?” Por que a Amazon recentemente comprou uma página inteira no New York Times anunciando em letras garrafais que: “Está na hora de aumentar o salário mínimo federal”, ou, por que a empresa twittou videos com seus funcionários que falavam bem da política da empresa (a Amazon oferece aos seus funcionários um salário mínimo de US$15.00/hora desde outubro de 2018)?

O motivo me parece óbvio: a empresa acredita que o tema tem apelo, tanto do ponto de vista reputacional, como para retenção e atração de novos funcionários. Ir a público com um posicionamento sobre um projeto de lei passou a ser estratégia de RP, no entanto, deve-se estar preparado para as críticas.  

Por exemplo, quando a Amazon lançou a campanha advogando por um salário mínimo de US$15/hora, reações no Twitter e algumas matérias online foram bem negativas. Havia acusações de que a empresa estava tentando minar esforços para constituir sindicatos em suas operações de armazenagem, de que tudo não passava de uma ação para forçar seus concorrentes a também incorporarem um salário mínimo de US$15,00/hora, de que a adoção do salário mínimo havia permitido a empresa reduzir o salário de certos trabalhadores ou que era puramente uma ação de RP. Verdade ou não, não deixa de ser irônico que segmentos mais a esquerda (que a anos advogam por um salário mínimo de US$15,00/hora) optaram por atacar uma empresa que já implementou a medida. É que o histórico da Amazon e sua relação com a sociedade em temas de seu interesse têm sido conturbada, afetando a confiança nela depositada. A empresa coleciona uma série de embates com a sociedade em temas que vão desde a proteção do meio ambiente até o monitoramento de funcionários interessados em criar um sindicato.

Exemplo distinto vem da Apple. Seu CEO, Tim Cook, recentemente tweetou que apoiava o Projeto de Lei da Igualdade, que proíbe em lei federal a discriminação com base no sexo, orientação sexual e identidade de gênero. “O Projeto da Igualdade reflete na lei o fato de que toda pessoa merece dignidade e respeito, independentemente da orientação sexual ou identidade de gênero – no trabalho, em casa e em praça pública. Apoiamos fortemente sua aprovação e encorajamos o Congresso a se reunir e fazer isso”. Mas esta não foi a primeira vez que a Apple se posicionou publicamente a favor dos direitos da comunidade LGBTQ+. A Apple apoiou o mesmo PL em 2015, quando foi apresentado na Câmara dos Deputados, e se posicionou contra iniciativas em assembléias estaduais que permitiríam a discriminação contra a comunidade LGBTQ+ usando a liberdade religiosa como pretexto.

As reações aos posicionamentos não poderiam ter sido mais diferentes, não só pela natureza dos temas, mas também devido ao capital social acumulado por ambas. Enquanto que a Amazon sempre se vangloriou de ter uma cultura de trabalho que persegue ferozmente seus objetivos em prol do consumidor, passando por cima de tudo e todos, a Apple tomou outra direção, focando no design, na privacidade e nos direitos da comunidade LGBTQ+. Mesmo que ambas tenham o consumidor num pedestal, a Apple acumulou capital social consideravelmente superior ao da Amazon e esta, finalmente, está correndo atrás do prejuízo.

Artigo primeiramente publicado no Jota.

Como derrubar um hedge fund (ou uma regulamentação, um PL, ..)

Em questão de semanas, Melvin Capital, um hedge fund tradicional de Wall Street, foi levado às portas da falência. Dois outros fundos tiveram que injetar em torno de US$ 2.75 bilhões para salvar a empresa da bancarrota. Melvin Capital havia apostado na baixa das ações da GameStop (GME), uma rede de lojas de video games que valia uns US$2 bilhões na bolsa de valores de NY. Mas como do nada, o preço das ações começou a subir de forma incontrolada, impondo perdas bilionárias ao fundo. Mas o que ou quem estava por trás desta subida de preço vertiginosa da GameStop (as ações chegaram a subir 1.700% no mês de janeiro)? 

Não foi nenhuma reviravolta no negócio da GameStop, nem ações dos grandes players do mercado, como um concorrente ou mega banco de investimento, mas daytraders (que na sua maioria são pequenos investidores). Num chat da Reddit chamado WallStreetBets, um pequeno grupo de daytraders irreverentes decidiu apostar na GameStop e algumas outras empresas, como a rede de cinema AMC, e comprar suas ações, forçando a subida na bolsa. Mas como isso é possível? Como é que alguns daytraders têm a capacidade de jogar o preço de uma empresa lá em cima e derrubar um hedge fund? Da mesma maneira que ano passado, duas ONGs lançaram uma campanha online à qual outras rapidamente aderiram, fazendo com que a CONITEC — que decide quais medicamentos devem ser incorporados ao SUS — decidisse em meras duas semanas a finalmente abrir suas reuniões à sociedade. Ou que uma petição na AVAAZ lançada em 2016 contra a franquia da banda larga fixa juntasse mais de 200.000 assinaturas (novamente) em duas semanas e em torno de 1 milhão em um mês. Ou que durante as discussões em torno da neutralidade da rede nos EUA, dezenas de milhares de pessoas atenderam ao pedido de John Oliver no seu programa na HBO, e enviaram comentários a agência que regula o setor de comunicação, a Federal Communications Commission (FCC), a favor da neutralidade da rede, derrubando o site. Isto é, daytraders jogaram o preço das ações da GameStop lá em cima devido a força conectiva das redes.

O caso Gamestop é só o exemplo mais recente desta força. E desta vez é até possível quantificá-la: US$22 bilhões. Foi quanto o valor da empresa chegou a subir na bolsa de valores de NY (dos US$2 para US$24 bilhões). Mas não bastam alguns daytraders coordenarem publicamente suas ações num grupo de chat. É necessário um número muito maior de pessoas, e aí entra uma característica chave das redes sociais. A conexão. De repente, um grande número de pessoas decide comprar as ações da GameStop, compartilhando tudo nas redes, incentivando uns aos outros. Cada um com sua motivação. Uns para mostrar aos poderosos de Wall Street que os pequenos, coletivamente, também tem força (suficiente para derrubar um hedge fund); outros para simplesmente lucrar; e mais uns outros que compraram só porque outros compraram, e por aí vai. 

De vez em quando eu dou uma olhada no ranking das ações mais compradas e uns dias antes deste caso virar notícia notei uma tal de GME. Fui olhar do que se tratava e vi que era uma loja de video games. Pensei: “Quem são esses loucos que estão comprando ações de uma loja de video games??!!”, e deixei pra lá. Mal sabia eu…

Naquele dia as ações da GME já estavam subindo vertiginosamente, uns 40-50%. O sistema (de pessoas e instituições comprando e vendendo ações) já havia chegado ao seu ponto crítico, ou tipping point, em que ele passa a ter vida própria. Isto é, o comportamento do sistema passou a refletir o comportamento coletivo, que traz o termo técnico de self organizing system. Não existe mais um player que influencia a tomada de decisão dos outros participantes, mas centenas ou milhares de pessoas que tomam decisões por que outras tomaram. É como um bando de pássaros que voa na mesma direção, seguindo não a um líder, mas sendo influenciados por aqueles em seu entorno, que por volta, são influenciados pelo seu entorno, e assim por diante. É o tal efeito manada.

No caso da CONITEC, a Amigos Múltiplos pela Esclerose (AME) e a Crônicos do Dia a Dia (CDD) iniciaram a campanha #transparênciaéregra a favor da divulgação pública das decisões da Comissão, uma demanda antiga que já vinha sendo debatida com a CONITEC desde meados de 2019. Em questões de dias outras associações de pacientes, como a Oncoguia e Biored Brasil, se juntaram a campanha criando uma massa crítica de organizações com força suficiente para levar a CONITEC a alterar sua prática. No caso da franquia da banda larga fixa, a petição na AVAAZ, que chegou a 1.6 milhões de assinaturas, ajudou a reverter temporariamente a decisão da ANATEL de criar uma franquia. São todos exemplos de ações viabilizadas pelas redes sociais.   

Um dos fatores por trás da escalada de preços da GameStop foi a entrada em cena de um novo aplicativo, Robinhood, que popularizou (ou democratizou) a compra e venda de ações, inclusive de frações da ações, reduzindo o custo de operar na bolsa. Nada diferente da democratização do lobby através de plataformas como Facebook, Twitter e YouTube, que reduzem o custo das ações de pressão sobre o poder público.  

Depois do susto, o sistema financeiro foi tentar entender o que se fala nestas tais plataformas sociais. Não querem mais ser pegos de surpresa. Entenderam que até em Wall Street o poder foi redistribuído, indo parar na mão do cidadão. Na bolsa de valores são os daytraders, no lobby, é o cidadão stakeholder.

Este artigo foi publicado no Jota (www.jota.info)

O inesperado legado de Trump

Após a invasão do Congresso em Washington por uma multidão de apoiadores do Presidente Trump — que interrompeu por algumas horas o processo de validação final dos votos para presidente de cada estado — vários CEOs criticaram publicamente a invasão, a violência associada ao episódio e o papel do Presidente como instigador mor da tomada do Capitólio.

Desde os dias que se seguiram aos protestos de Charlottesville em agosto de 2017, quando Trump equalizou grupos neo nazistas e de supremacistas brancos aos grupos que a eles se opuseram, CEOs têm se deparado com uma nova ordem: um entendimento bem mais amplo pela sociedade de qual deveria ser a responsabilidade social das empresas. Neste contexto, o tradicional silêncio corporativo sobre questões sociais passou a ter um custo reputacional. Cobrava-se dos CEOs coerência entre os valores das empresas e de suas ações. O silêncio, como ação, era uma afronta a estes valores. 

Na época, CEOs tiveram que ser fortemente pressionados pelos seus funcionários e sociedade em geral para que se posicionassem. Depois de hesitarem por alguns dias, os CEOs finalmente criticaram a fala do Presidente e saíram em bloco dos grupos empresariais patrocinados pela Casa Branca. Desta vez, no entanto, vários CEOs foram imediatamente a público via suas contas no Twitter, comunicados internos, posts e press releases para defender a democracia, efetivamente tomando partido. 

O CEO da Apple, Tim Cook, foi um dos primeiros a tweetar, no próprio dia da invasão: “O dia de hoje marca um capítulo triste e vergonhoso na história da nossa nação. Os responsáveis por esta insurreição devem ser responsabilizados, e devemos concluir a transição para a administração do presidente eleito Biden. É especialmente quando eles são desafiados que nossos ideais são mais importantes.” O presidente do banco Morgan Stanley, James Dimon, disse: “Nossos líderes eleitos têm a responsabilidade de pedir o fim da violência, aceitar os resultados e, como nossa democracia tem feito por centenas de anos, apoiar a transição pacífica de poder.” Até a Associação Nacional da Indústria Manufatureira (NAM) foi à público para pedir que o vice presidente Pence invocasse a Emenda 25 que permite a remoção do Presidente por uma maioria dos ministros. 

Outro CEO que foi a público foi Mark Zuckerberg, do Facebook. Ele comunicou que a plataforma estava temporariamente (até o dia 20/1 quando Biden assume a presidência) suspendendo a conta do Presidente Trump. “Acreditamos que os riscos de permitir que o presidente continue a usar nossos serviços durante esse período são simplesmente grandes demais”. No entanto, muitos criticaram a ação de Zuckerberg como tardia. Ao longo dos últimos anos, a plataforma sistematicamente empurrou com a barriga ações concretas para conter a desinformação, deixando a impressão que estava mais preocupada com o bottom line. Uma ação, por mais que correta, aos 44 minutos do segundo tempo, não é muito convincente e está sujeita a interpretações de oportunismo.

Passados alguns dias da invasão, empresas e seus CEOs estão tomando medidas mais fortes para proteger a legitimidade do processo democrático colocado em xeque pelo Presidente Trump. Elas foram atrás dos deputados republicanos que votaram contra a validação dos votos do colégio eleitoral, criando um novo e poderoso precedente. Isto é, empresas estão usando seu poder econômico em linha com seus valores e penalizando membros do Congresso.  

A cadeia de hotéis Mariott, a empresa de seguros de saúde Blue Cross Blue Shield e o banco regional Commerce estavam entre as primeiras empresas a anunciarem que interromperiam suas contribuições de campanha para os Republicanos que se aliaram a mentira do Presidente (de que a eleição havia sido roubada) e votaram contra a validação dos votos. Outras empresas, como Google, Facebook, Amazon, AT&T, Coca Cola, Morgan Stanley e Dow anunciaram logo na sequência que também suspenderiam por tempo indeterminado suas contribuições de campanha a estes membros do Congresso. 

Situações extraordinárias convidam ações fora do comum. A tentativa de golpe pelo Presidente Trump é uma destas situações extraordinárias e algumas empresas estão respondendo à altura. Mesmo que o presidente esteja de saída, minimizando o risco de retaliação pelo Executivo, os deputados têm mais dois anos de mandato. 

Assim Trump deixa um legado inesperado, o de empresas prontas para defender a democracia, vivenciando plenamente seu papel de cidadãos corporativos. Quem sabe num futuro próximo mais empresas assumam seu papel cidadão, além de utilizar seu poder econômico para avançar outras causas em prol do bem comum.

Este artigo foi inicialmente publicado no Jota https://bit.ly/3icOz5O

A nova fronteira do lobby

Empresas que não investirem seu capital econômico numa causa submetem-se ao risco de críticas de PR activism 

“Seja literal. Faça exatamente o que você diz que fará”. Foi assim que Anthony Herron, um rapper de Queens em Nova York, reagiu ao hashtag #standforjeniffer, ou #apoiejeniffer. 

Jeniffer, negra e mãe solteira de uma menina de 2 anos estava sendo assediada e ameaçada por um vizinho há 3 anos. A polícia dizia que nada podia fazer caso não houvesse agressão física. Com medo e sem alternativas escreveu uma nota gigante falando de sua situação e a fixou do lado de fora de sua casa. Alguém viu a nota, tirou uma foto e a postou na web. Foi o ponta pé inicial da campanha #standforjennifer.

Quando viu a campanha, Anthony decidiu ir além de simbolicamente deixar seu apoio  numa plataforma digital. Optou por um ato concreto: uma vigília noturna na frente da casa de Jennifer. Queria protegê-la. Com a campanha, qualquer um poderia descobrir o endereço de Jennifer, e ele não podia descartar a possibilidade de algum ato mais violento. Iria esperar até que o caso da Jennifer fosse ouvido pela corte. A vigília durou 90 dias. Outros vizinhos eventualmente apareceram, Anthony ganhou alguma notoriedade, um artigo contando sua história saiu na Medium e outros homens negros em outras cidades começaram a considerar um movimento para proteger mulheres negras vítimas de assédio racial.

Antes da minha carreira em relgov estudei geologia por seis anos e meio, e alguns dos aprendizados levo comigo até hoje. Um deles tem a ver com mapeamento. Aprendi, por exemplo, que um mesmo evento pode ser observado no microscópio numa amostra de rocha em que os minerais foram reorientados, no campo, em que um corte de estrada mostra a direção de um cisalhamento, ou numa imagem de satélite que revela a orientação de uma serra. O que muda é a escala. O evento é o mesmo.

Na sua essência, o comentário de Anthony abrindo este artigo não difere das críticas que a Nike recebeu após postar um vídeo de apoio aos protestos relacionados ao movimento Black Lives Matter (BLM) em maio deste ano. Muitos perguntaram o que a Nike estava fazendo de concreto, pois mesmo articulando uma visão pró BLM, ela não tinha feito o dever de casa: a liderança da empresa era quase exclusivamente branca. Também não difere da crítica direcionada à Amazon numa matéria da E&E, uma newsletter focada em energia e meio ambiente. O título da matéria “115 lobistas da Amazon, 1 para o meio ambiente” diz tudo. O racional da matéria segue a linha do: se o aquecimento global fosse de fato prioridade para a empresa, ela estaria investindo mais no lobby a favor do meio ambiente. 

Este é o novo desafio que se põe para a liderança das empresas em que o apoio a ONGs e cartas abertas — como aquela ao Vice Presidente Mourão em que as empresas pedem por uma política de preservação da floresta Amazônica — ajudam, mas são simbólicas. Das lideranças das empresas espera-se ações concretas, como a de Anthony, em que usam seu poder econômico para efetuar mudança. O famoso “walk the talk” em inglês. E isso cada vez mais se traduz em lobby a favor de uma causa.

Algumas empresas já estão lá. A Patagonia entrou com uma ação legal contra o governo Trump quando este tentou reduzir o tamanho de um parque nacional. O Ben & Jerry apoiou uma petição contra a MP 910, a da grilagem. Nos EUA, empresas como a Ford e VW se aliaram ao estado da Califórnia contra o governo Trump que queria reduzir os padrões mais rígidos de milhagem da Califórnia. E a Apple e a Saleforce fizeram lobby contra projetos de lei estadual que discriminavam a comunidade LGBTQ+. 

Se o advocacy digital várias vezes leva a pecha de click activism, ações bem intencionadas de empresas levarão a pecha de PR activism. A reação de Anthony a campanha #standforjennifer e a reação da sociedade à ações bem intencionadas de empresas é essencialmente a mesma, só muda a escala.  

Artigo publicado inicialmente no Jota 

Lobby’s new frontier

“Be literal. Do exactly what you say you will do.” That’s how Anthony Herron, a rapper from Queens in New York, responded to the hashtag #standforjeniffer.

Jeniffer, a black and single mother of a 2-year-old girl, was being harassed and threatened by a neighbor for 3 years. The police said there was nothing they could do without there being physical aggression. Afraid and without alternatives, she wrote a giant note and fixed it outside her house. Someone saw the note, took a photo of it and posted it on the web. It was the kick-off of the #standforjennifer campaign.

When he saw the campaign, Anthony decided to go beyond symbolically stating his support on a digital platform. He opted for concrete action: a night watch outside Jennifer’s house. He wanted to protect her. Due to the campaign, anyone could find out Jennifer’s address, and he couldn’t rule out the possibility of a more violent act. He would wait until Jennifer’s case was heard by the court. The vigil lasted 90 days. Other neighbors eventually showed up, Anthony gained some notoriety, an article telling his story appeared on Medium, and other black men in other cities began to consider a movement to protect black women who were victims of racial harassment.

Before my career in government relations, I studied geology for six and a half years, and some of the lessons I carry with me since then. One has to do with mapping. I learned, for example, that the same event can be observed under a microscope in a thin slice from a rock sample where the minerals have been reoriented, in the field, where an outcrop shows the direction of a shear, or in a satellite image that reveals the orientation of a mountain ridge. What changes is the scale. The event is the same.

Anthony’s comment opening this article is no different from criticism leveled at Nike’s video in support of the Black Lives Matter (BLM) protests earlier this year. Many asked what Nike had concretly done, because even as it articulated a pro BLM vision, it had not done its homework: the company’s leadership was almost exclusively white. Nor does it differ from criticism directed at Amazon in an E&E article, a newsletter focused on energy and the environment. The title of the article “115 Amazon lobbyists, 1 for the environment” says it all. The rationale of the article follows the line of: if global warming was indeed a priority for the company, it would be investing more in lobbying efforts in favor of the environment.

This is the challenge that corporate leadership will have to deal with. Support for NGOs and open letters – such as the one to Vice President Mourão in which companies ask for environmental policies to protect the Amazon rainforest – help, but are symbolic. Corporate leaders are expected to take concrete actions, like Anthony did, in which they use their economic power to effect change. The famous “walk the talk”. And this increasingly translates into lobbying for a cause.

Some companies are already there. Patagonia filed a lawsuit against the Trump Administration when it tried to downsize a National Park in Utah. Ben & Jerry supported a petition against MP 910, a measure that would have made it easier to legalize public forest land illegally seized. In the U.S., companies like Ford and VW joined the state of California as defendants against the Trump Administration’s suit to role back California’s stricter gas mileage standards. And Apple and Salesforce lobbied against state bills that discriminated against the LGBTQ + community.
If digital advocacy often leads to criticism of click activism, well-intentioned actions by corporations will lead to criticism of PR activism. Anthony’s reaction to the #standforjennifer campaign and society’s reaction to well-intentioned actions by corporations is essentially the same, what changes is the scale.

*Baseado parcialmente em matéria publicada pelo Medium

Na Contramão

Em nome da liberdade de expressão, o Facebook tem seguido na contramão de outras empresas, resistindo adotar medidas mais restritivas (como o fizeram o Google e o Twitter) para conter a propagação de propaganda política enganosa (discutido no meu post sobre fake propaganda política) e mais recentemente a propagação de mensagens que incitam a violência e o ódio (hate speech). Isto, depois de ter passado por uma série de percalços, incluindo o caso Cambridge Analytica (privacidade de dados) e a influência Russa nas eleições presidenciais de 2016. Premeditado ou desconexão da liderança com o mundo que os cerca?

Zuckerberg, CEO do Facebook, sempre foi rápido no gatilho e certeiro nos tiros. Em 2012 ele comprou o Instagram por US$1 bilhão (a empresa é hoje avaliada em mais de US$100 bilhões) numa negociação que demorou somente um fim de semana. Dois anos depois fechou a compra do WhatsApp por US$19 bilhões. E em meio a pandemia os resultados quadrimestrais da empresa foram acima do esperado. Nada mau. No entanto, a reputação da empresa … De acordo com pesquisa da Axios Harris Poll publicada esta semana, o Facebook está em 97 lugar, junto com Wells Fargo (96), Monsanto (98), Organizações Trump (99) e Juul Labs (100). A Amazon está em terceiro lugar, o Google em 24 e a Apple em 27. Mas será que Zuckerberg está preocupado? Parece que não.

Algumas semanas atrás estourou mais uma crise. Desta vez o estopim foi um tweet do Presidente Trump logo após o assassinato de George Floyd, homem negro sufocado por um policial branco numa rua de Minneapolis. No seu tweet o presidente diz: “..when the looting starts, the shooting starts” (quando os saques começam, os tiros começam). A frase tem passado racista. Ela foi utilizada pelo chefe da polícia de Miami, Walter Headley, em 1967, numa audiência pública para tratar da ameaça de jovens negros nas marchas por direitos civis. Segundo matéria do New York Times de 1970, Headley disse: “Existe apenas uma maneira de lidar com saqueadores e incendiários durante uma rebelião, e é matá-los à primeira vista. Eu deixei a palavra filtrar (pela organização): quando os saques começam, os tiros começam”. No ano seguinte, o candidato segregacionista a presidência dos EUA, George Wallace, também usou a frase.

O Twitter (cuja reputação — dois pontos a frente do Facebook — também deixa a desejar) agiu rapidamente. Baseado na sua regra de que o tweet “glorificava a violência”, a empresa manteve o tweet do Presidente, mas dificultou o acesso ao tweet e não permitiu que fosse compartilhado nem que pessoas pudessem dar um like (veja abaixo). Facebook, no entanto, seguiu na sua linha tradicional e não interferiu. Para Zuckerberg o tweet do Presidente não feria as políticas internas da empresa, mesmo que discordasse da abordagem do Presidente. Na sua página do Facebook ele escreveu: “Eu discordo totalmente de como o presidente falou sobre isso, mas acredito que as pessoas devem ser capazes de ver isso por si mesmas, porque, em última análise, só será possível responsabilizar aqueles em posições de poder quando seu discurso é examinado minuciosamente para todo mundo ver”. Vários funcionários ficaram indignados com a posição de Zuckerberg. Uns fizeram uma mini greve virtual (única alternativa possível durante uma pandemia), outros se demitiram, mas nada mudou.

 

Screen Shot tweet DT 2020-08-06 at 10.36.03 AM

A sociedade civil organizada, como a Color of Change, Anti Defamation League e Sleeping Giants decidiu ir além das conversas regulares que mantinham com o Facebook para organizar um boicote (#stophateforprofit) em que pediam para que empresas parassem de anunciar na plataforma durante o mês de julho. Mais de 1000 empresas aderiram ao boicote, entre elas a Patagonia, Ben & Jerry, Unilever e Levi’s. O impacto financeiro do boicote foi limitado, mas parece que Zuckerberg entendeu o recado. Quando o Presidente Trump subiu um video em que alegava que crianças eram praticamente imunes ao vírus Covid-19, a empresa bloqueou o video argumentando que se tratava de desinformação, em desacordo com sua política.

Com mais de 3 bilhões de usuários globalmente, a opinião de uns ou outros sobre como a plataforma se posiciona frente a temas como a privacidade dos dados e mensagens que disseminam o ódio e a violência parece não ser prioridade para Zuckerberg. Mas outras empresas não se podem dar a este luxo e estão mais abertas a um novo mundo em que a opinião do cidadão conta. Para Zuckerberg será mais difícil ignorar o peso econômico destas empresas. 

Minha resposta à pergunta no final do primeiro parágrafo: premeditado. Qual a sua?

XXXXXXXXXXXXXXXXX INFORMAL ENGLISH TRANSLATION XXXXXXXXXXXXXXXXXXX

In the name of freedom of speech, Facebook has taken the opposite approach from many companies, and has resisted the adoption of restrictive measures (as Google and Twitter did) to contain the spread of misleading political advertising (discussed in my post on fake political advertising) and more recently the spread of messages that incite violence and hatred (hate speech). This, after having gone through a series of mishaps, including the Cambridge Analytica debacle (data privacy) and the Russian influence scandal in the 2016 presidential elections. Premeditated or a disconnected leadership?

Zuckerberg, Facebook’s CEO, has always been quick on the draw and accurate on the shots. In 2012 he bought Instagram for $1 billion (the company is now valued at more than $100 billion) in a deal that took only a weekend to negotiate. Two years later he closed the purchase of WhatsApp for $19 billion. And in the midst of a pandemic, the company’s quarterly results were above expectations. Not bad. However, the company’s reputation … According to an Axios Harris Poll survey published this week, Facebook ranks 97, along with Wells Fargo (96), Monsanto (98), Trump Organizations (99) and Juul Labs (100). Amazon is in third place, Google in 24 and Apple in 27. But is Zuckerberg worried? It seems not.

A few weeks ago another crisis broke out. This time the trigger was a tweet from President Trump shortly after the assassination of George Floyd, a black man choked by a white policeman on a Minneapolis street. In his tweet the president says: “..when the looting starts, the shooting starts”. The phrase has a racist past. It was used by Miami police chief Walter Headley in 1967 in a public hearing to address the threat of black youth in civil rights marches. According to a New York Times report from 1970, Headley said: “There is only one way to handle looters and arsonists during a riot and that is to shoot them on sight. I’ve let the word filter down: When the looting starts the shooting starts.” The following year, the segregationist candidate for the presidency of the USA, George Wallace, also used the phrase.

Twitter (with a reputation score of 95, only two points ahead of Facebook) acted quickly. Based on its rule that the tweet “glorified violence”, the company added a warning to it, made it difficult to access the tweet, and did not allow it to be either shared or liked (see below). Facebook, however, followed in its traditional path and did not interfere. For Zuckerberg, the President’s tweet did not breach the company’s internal policies, even if he disagreed with the President’s approach. On his Facebook page he wrote: “ I disagree strongly with how the President spoke about this, but I believe people should be able to see this for themselves, because ultimately accountability for those in positions of power can only happen when their speech is scrutinized out in the open.”

Screen Shot tweet DT 2020-08-06 at 10.36.03 AM

Several employees were outraged by Zuckerberg’s position. Some had a virtual strike (the only possible alternative during a pandemic), others resigned, but nothing has changed.

Organized civil society, such as the Color of Change, Anti Defamation League and Sleeping Giants decided to go beyond the regular conversations they had with Facebook to organize a boycott (#stophateforprofit) in which they asked companies to stop advertising on the platform during the month of July. More than 1,000 companies joined the boycott, including Patagonia, Ben & Jerry, Unilever and Levi’s. The financial impact of the boycott was limited, but it appears that Zuckerberg got the message. When President Trump uploaded a video in which he claimed that children were practically immune to the Covid-19 virus, the company blocked the video on the grounds that it was disinformation, at odds with its policy.

With more than 3 billion users globally, one’s opinion about how the platform positions itself on issues such as data privacy and messages that spread hate and violence does not seem to be a priority for Zuckerberg. But other companies cannot afford this luxury and are more open to a new world in which people’s opinions count. Zuckerberg will find it harder to ignore the economic weight of these companies.

My answer to the question at the end of the first paragraph: premeditated. What’s yours?