como avançar a sua agenda via Twitter

O vídeo político mais visto no Twitter e número 41 entre todos os vídeos jamais vistos na plataforma é um da Deputada Federal Alexandria Ocasio-Cortez, deputada por Nova York em seu primeiro mandato. O tema: a reforma do sistema de financiamento eleitoral! Foram 40 milhões de visualizações. Nada de cachorrinhos fofos ou gamers, mas uma audiência pública no Congresso Americano. 40 milhões é sinal dos tempos. Sinal de que a sociedade está mais do que disposta a se informar e participar do processo democrático (além de votar a cada dois anos). É só saber se conectar com ela.

E isso Ocasio-Cortez faz com a maior naturalidade. Além de profundamente dominar a mídia social, AOC — como é conhecida a mais jovem mulher já eleita ao Congresso Americano — passa uma imagem humana e autêntica. Desde de que venceu a primária no seu distrito ela passou a ser a cara da nova geração Democrata, representando a ala mais a esquerda do Partido. E com 3.7 milhões de seguidores no Twitter seu raio de influência se estende para bem além do Congresso Americano.

O vídeo, gravado na Comissão de Fiscalização e Reforma da Câmara e editado pelo site de notícias NowThis News, dura pouco mais do que 5 minutos. Nele, AOC constrói seu argumento passo a passo usando perguntas simples e intuitivas. Aos especialistas ela demanda pouco mais do que respostas na forma de sim e não. Segue uma das perguntas: “Existe algo que me impede de ter ações (na bolsa de valores) de empresas de petróleo e gás e depois redigir uma lei para desregulamentar a indústria, o que poderia potencialmente levar as ações a subirem e acumular muito dinheiro?”

Com um tom levemente sarcástico, na medida certa, e uma boa dose de criatividade (o que não é fácil numa audiência pública) AOC não deixa a mínima dúvida para quem assiste ao vídeo: o sistema de financiamento eleitoral americano deixa as portas escancaradas ao conflito de interesse e atitudes anti éticas daqueles que foram eleitos. E mesmo que esta não seja uma avaliação unânime entre os experts, a marca de 40 milhões de visualizações é uma ótima notícia para o projeto de Lei HR1 — que lida com o financiamento de campanhas, a ética e os direitos dos eleitores. O consenso atual é o de que o PL será aprovado na Câmara dos Deputados — que desde janeiro tem maioria Democrata — mas que seu destino no Senado, controlado pelos Republicanos, é bem mais incerto.

O vídeo político número 2 no Twitter (com a metade do número de visualizações) pertence ao também Democrata Beto O’Rourke, ex-deputado que concorreu nas últimas eleições ao Senado do Texas, perdendo por uma pequena margem. Nele, Beto O’Rourke responde a uma pergunta de um eleitor durante uma reunião tipo townhall. O eleitor queria saber qual era a posição do ex-deputado em relação aos jogadores de futebol americano que se ajoelhavam durante a execução do hino nacional em protesto à brutalidade policial cometida contra jovens afro americanos. O assunto passou a ser altamente polêmico após ter sido politizado pelo Presidente Trump. A resposta de O’Rourke foi articulada, inteligente e franca — nada de meias respostas — e com 1.23 milhões de seguidores no Twitter ele também conta com uma boa base para disseminar a sua mensagem.

Mesmo com estilos diferentes, Ocasio-Cortez e O’Rourke souberam se conectar com a sociedade via a mídia social, tornando-se maiores do que seus redutos eleitorais. E da mesma maneira que o Presidente Trump, com seus 58.3 milhões de seguidores no Twitter, usa a plataforma para direcionar o debate e definir a agenda do país, AOC usa Twitter e Instagram para levar a sua visão à sociedade. Cada qual entendeu que a comunicação com a sociedade via a mídia social é meio caminho andado para avançar sua agenda política.   

 

o ativismo corporativo veio para ficar

Num dos meus blogs anteriores escrevi sobre como as políticas públicas viraram públicas. Falei sobre a rotulagem de produtos no Chile (em que o vídeo de uma estudante no YouTube teve em torno de 10 vezes o número de visualizações do que o da entidade de classe representando os interesses da indústria) e a neutralidade da rede nos EUA (que virou ação de marketing do Burger King). Ambos os casos demonstram diferentes aspectos da democratização do lobby e do debate de políticas públicas, no entanto, os dois tratam de temas essencialmente econômicos.

Hoje quero trazer dois exemplos em que os temas são sociais, onde não existe uma conexão econômica direta que justificasse o engajamento das empresas. Primeiro, compartilho o caso da Delta Airlines sobre o controle de armas e em seguida, o caso da Salesforce sobre a crise dos sem teto em São Francisco (onde atualmente moro).

Após o massacre de 2017 em que 17 estudantes foram mortos a tiros numa escola da Flórida, várias empresas aderiram a um boicote contra a Associação Nacional de Rifles (NRA). A Delta Airlines, com sede na cidade de Atlanta, Georgia, optou por cancelar um programa de descontos aos membros da NRA. O vice governador da Georgia, um republicano, imediatamente foi a público contra a decisão da empresa, ameaçando eliminar uma proposta de redução de imposto sobre combustível de aviação — da qual a Delta Airlines seria a maior beneficiária — que estava em discussão na Assémbleia Legislativa. Poucas semanas depois, a Assembléia, controlada pelo Partido Republicano, passou a nova lei tributária sem o corte de impostos. A Delta manteve seu posicionamento, mas perdeu US$40 milhões em benefícios fiscais.

Neste caso, além de não haver nenhuma vantagem econômica direta para a Delta, a empresa perdeu US$40 milhões em benefícios fiscais. Mas porque a Delta seguiu este caminho? Pelo mesmo motivo que cada vez mais empresas se engajam em temas sociais: o de construir confiança entre a empresa e a sociedade, e o reconhecimento de que a confiança somente se constroe com ações concretas, em linha com as expectativas da sociedade e/ou comunidade que as cerca.

Foi assim também com a Salesforce. Em novembro de 2017 os eleitores de São Francisco aprovaram uma iniciativa popular (Proposition C) instituindo um novo tributo que incidirá sobre empresas com faturamento acima de USD50 milhões com o objetivo de endereçar um problema crônico da cidade – os sem teto. Até ai nada de muito novo. O que há de novo é que o CEO da Salesforce, Marc Benioff, se jogou de corpo e alma no debate, disponibilizando recursos próprios e da empresa (na ordem de USD7 milhões) para apoiar a causa. Ele acabou se tornando um porta voz informal da iniciativa. Ele apareceu em programas de TV e escreveu um artigo de opinião que foi publicado no New York Times. Ao defender o imposto ele bateu de frente com outros CEOs, como por exemplo Jack Dorsey do Twitter, que se posicionaram de forma contrária a iniciativa. No final, Benioff e sua coalizão obtiveram 60% de votos favoráveis à iniciativa popular.

Os casos da Delta e Saleforce são emblemáticos deste novo ambiente em que empresas estão assumindo um novo papel, usando sua força econômica e política para efetuar mudanças em políticas públicas de cunho social, o que é extremamente positivo. Mas este papel não vem sem riscos. Ao contrário das ações de cidadania corporativa tradicionais e de sustentabilidade, o ativismo corporativo se conecta com a política e o mundo das políticas públicas, criando um novo contexto em que empresas e CEOs terão que navegar.

as políticas públicas viraram públicas

Se aprendemos que políticas públicas são para a sociedade, hoje elas também são da sociedade. Foi-se o tempo em que política pública era tema para poucos, discutido em gabinetes, conferências, papers acadêmicos, eventos, editoriais, consultas públicas, … Hoje, as políticas públicas estão se tornando verdadeiramente públicas. Isto é, política pública passou a fazer parte do dia a dia das pessoas. Aquecimento global, controle de armas, rotulagem de produtos alimentícios e igualdade racial são somente alguns exemplos de temas sobre os quais a sociedade pensa, discute e se manifesta na hora de governos agirem. E quando falo sociedade, não me refiro as organizações que representam diversos segmentos, mas sim ao cidadão como indivíduo.

Um ótimo exemplo do protagonismo individual e de como políticas públicas viraram públicas é um vídeo que a estudante Bea Córdova postou no seu canal de YouTube Menta y Gengibre no Chile. Nele ela contra argumenta ponto a ponto as críticas à Lei de Rotulagem feitas pela Associação Chilena de Bebidas e Alimentos (AB Chile) numa campanha chamada Hagamóslo bien. Nela, celebridades questionam elementos da lei, como medir a quantidade de nutrientes por 100 gramas em vez de por porção. Mesmo que a campanha da AB Chile tenha causado polêmica, o vídeo da Bea obteve mais de 270.000 visualizações enquanto que o da AB Chile 72.000.    

Alguns fatores ajudaram a criar esta nova realidade. Primeiro, para as novas gerações, particularmente os millenials, é mais importante fazer a diferença e ter um impacto positivo no mundo que os cerca e segundo, a internet abriu espaço para que qualquer um possa manifestar a sua opinião e achar outros que a compartilham, sem a necessidade de uma organização que os represente. Sites como os da Avaaz e change.org refletem esta nova realidade.

Esta nova geração também passou a demandar que as empresas nas quais trabalham se posicionem nas discussões públicas sobre temas que até pouco estavam fora da agenda corporativa externa, como igualdade racial e aquecimento global. Não é a toa que vários CEOs se manifestaram publicamente a favor do Tratado de Paris (acordo para limitar o aumento da temperatura global a menos de 2C) quando o Presidente Trump indicou que iria romper com o Tratado.

E assim, políticas públicas (e a posição das empresas com relação a elas) estão lentamente se tornando mais um elemento na construção da imagem corporativa. Algumas empresas já foram além, transformando política pública em ação de marketing. Segue um exemplo que incluí no meu livro (ainda sendo finalizado).

Em janeiro de 2018 o Burger King criou um experimento social no YouTube para explicar a neutralidade da rede, posicionando-se a favor dela. No vídeo, intitulado Whopper Neutrality, diferentes tempos de espera pelos hambúrgers exemplificam o que seria o acesso ao conteúdo na internet sem as regras da neutralidade da rede. Clientes enfurecidos são obrigados a escolher entre o Whopper lento, rápido e super rápido, tendo que pagar mais pelos hambúrgers rápido e super rápido.

No final do vídeo aparece o link da página da change.org que leva o espectador à uma petição para que senadores aprovem uma resolução revertendo a decisão da Comissão Federal de Comunicação (FCC) de revogar a neutralidade da rede. O vídeo obteve mais do que 4.6 milhões de visualizações. Desde o lançamento do vídeo o Senado aprovou a resolução e encaminhou a matéria para a Câmara.

E o que o Burger King têm a ver com a neutralidade da rede? Pouco, mas aparentemente um dos objetivos era conectar / atrair aos seus restaurantes o segmento do público interessado na neutralidade da rede. Não foi somente o lobby que foi democratizado, a política pública também foi.

sobre este blog

Ainda em São Paulo, na J&J, percebi que a dinâmica do lobby estava mudando. Vídeos, campanhas e mobilizações organizadas por ONGs não eram páreo para o lobby tradicional das empresas e entidades de classe. Comecei a observar, estudar e ler sobre o que estava acontecendo não somente no Brasil, mas também nos EUA, e vi que algumas empresas estavam seguindo no mesmo caminho. Foi então que há 3 anos atrás iniciei um projeto de fim de semana. Tentar organizar o que estava aprendendo num livro.

No final do ano passado o Google ofereceu uma posição para a minha esposa em São Francisco. Abraçamos a oportunidade, mesmo que isto tenha significado minha saída da J&J. Por outro lado, pude avançar com o projeto do livro, que está na reta final.  

O título provisório do livro é “lobby: democratizado” (mais para a frente vou pedir outras sugestões). Tenho utilizado este título desde que falei sobre o tema num painel organizado pela Virada Política de 2017. Infelizmente, naquele dia, o tempo não foi suficiente para uma sessão mais longa de debate. Foi então que comecei a pensar num blog como uma alternativa de troca de informações, em que poderia expor algumas das minhas idéias e obter retorno, sem a pressão do tempo.

Desde lá passou um ano e acho que chegou a hora de abrir o livro (antes de publicar) para quem queira contribuir com suas idéias e experiências. Confesso que tenho um pouco de medo. Depois de mais de 3 anos escrevendo, revendo e reescrevendo a gente se apega ao “produto”. E quem me conhece sabe que preciso de um tempo para absorver críticas construtivas… 

A minha proposta inicial é compartilhar alguns trechos do livro e abrir uma conversa sobre para onde eu acho que o lobby está indo. Só para deixar claro: estou pouco preocupado com o arcabouço legal e regulatório do lobby. Acho que já têm bastante gente boa pensando sobre este tema. O meu foco é outro, o cidadão; de como falar com ele sobre políticas públicas, engajá-lo e poder contar com o seu apoio (seja via um tweet, post ou assinatura numa petição). Isto porque um debate verdadeiramente público sobre uma política pública muda tudo: a mensagem, a lógica e a dinâmica do processo.

Para mim este blog começa como um experimento e uma necessidade. Acho que desta forma crio uma certa coerência entre o tema do livro e o livro em si. Mas o blog vai além do livro para falar sobre lobby, olhando para frente. Claro que tenho expectativas: espero que alguns de vocês se interessem pelo tema, que surjam pontos de vista distintos e que possamos ter uma boa conversa.

O próximo post será sobre grassroots.
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